Goiânia: Ônibus flexíveis à demanda - o CityBus 2.0

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Por Rafael Martins

Apesar da RMTC ter sido instituída em 2001, a efetivação da tarifa única veio 4 anos depois e era vista como solução pelos empresários e técnicos para o movimento pendular do interior à capital. Na época, cerca de 70% das viagens da rede eram dentro de Goiânia e só 30% eram de moradores das cidades vizinhas até a capital. A CDTC, em 11 de outubro de 2005, determinou através da Deliberação 054 a unificação tarifária. Segundo o colegiado, a viabilização da tarifa única deu-se com base em estimativas de demanda média mensal do sistema apresentada pela CMTC.

A rede era operacionalizada em linhas urbanas, linhas semiurbanas caracterizada por itinerários extensos e baixa demanda cujo IPK era abaixo de 1; enquanto a média da rede era de 1,65 passageiros por quilômetro. Estes itinerários semiurbanos constituíam como linhas alimentadoras do Eixo Anhanguera, linha estrutural da RMTC, cujo IPK era superior a 6. Considerando o desequilíbrio entre o IPK do Eixão (6 passageiros/km) e das linhas semiurbanas (abaixo de 1), isto impôs ao Poder Público a adoção de medida de reequilíbrio, inclusive para viabilizar a incidência da tarifa única para todo o sistema. Além disso, a unificação tarifária na RMTC foi uma reivindicação dos prefeitos e lideranças dos municípios integrantes da Grande Goiânia.

A aplicação da tarifa única passou a valer desde 13 de outubro de 2005 em toda a RMTC. A partir daquele ano a dinâmica dos deslocamentos dentro da Grande Goiânia se inverteu. Isto porque houve uma explosão demográfica nas demais cidades da região metropolitana, devido ao custo de vida mais baixo que o da capital. Este fator contribuiu para a expansão desordenada das cidades, refletindo no custo da operação do serviço. Isto porque pessoas que não tiveram condições de morar em Goiânia e foram para outras cidades, mantiveram vínculos de trabalho, escola ou uso dos serviços e equipamentos públicos e privados com a capital, utilizando um sistema de transporte metropolitano pagando somente uma única passagem. Para o empregador, o local de moradia do funcionário não importa quando oferta-se o vale-transporte, já que o preço é único em toda a Grande Goiânia atendida pela RMTC.

Se a conurbação estava restrita apenas com Aparecida e em escala menor Senador Canedo, o fenômeno expandiu-se para outras cidades. A falta de uma política habitacional justa e a especulação imobiliária, além da implantação dos grandes empreendimentos habitacionais sem planejamento e em desacordo com o previsto nos Planos Diretores, como o Minha Casa, Minha Vida; contribuíram para esse espraiamento. Por exemplo, o número de loteamentos em Goianira cresceu ao longo da GO-070, rumo à Goiânia, e o mesmo ocorreu com Trindade, na GO-060 em direção ao segundo núcleo urbano daquele município conhecido como Trindade II. Ou seja, além do tecido urbano se tornar único, são mais pessoas utilizando as mesmas linhas do transporte coletivo que de forma compulsória tiveram de ser ampliadas em regiões urbanisticamente espraiadas.

Este crescimento horizontal do tecido urbano impacta diretamente na política tarifária, ainda mais nos moldes vigentes da RMTC, em que se cria os benefícios e não cria a contrapartida para arcar com estes custos extratarifários. Com isso, o entendimento das concessionárias é que o setor de transporte coletivo não pode mais arcar com esse custo social, e que ainda levaria à derrocada do sistema.

O modelo de tarifa única opera com um sistema de compensação interna no qual, como regra, a tarifa dos usuários das viagens mais curtas cobre parte dos custos dos que residem em áreas mais distantes; porém ao longo dos anos, o sistema perdeu significativa parcelas de usuários - principalmente aqueles que realizam deslocamentos de curta distância; ou seja, a tarifa apesar de ser única para toda a RMTC, ela está cada vez mais cara; principalmente para o goianiense que precisa de deslocar dentro da capital. Para as cidades menores da região metropolitana que tem suas próprias redes de transporte, como Trindade, Goianira, Nerópolis e Senador Canedo; a tarifa única desestimula os deslocamentos internos por ônibus e consequentemente o desenvolvimento destas cidades. É atrativo ir e consumir bens e serviços na capital com a atual tarifa totalmente integrada.

Eis o maior desafio para a RMTC: como atrair de volta o passageiro lindeiro, ou seja, aquele que utiliza as viagens curtas; sem penalizar o usuário que reside em locais distantes e vem para Goiânia? Após dois anos de intensas pesquisas e estudos e um investimento de aproximadamente R$ 5 milhões, a HP Transportes apresentou nesta quarta-feira (30) durante o Seminário Mobinova o projeto CityBus 2.0, que atende a uma necessidade de deslocamento para curtas distâncias.

Trata-se de um serviço de transporte coletivo complementar à rede convencional, previsto no contrato de concessão, cujo diferencial é ser responsivo à demanda. Esse tipo de transporte se caracteriza, de um modo geral, como um ônibus ou minivan que não se limitam aos percursos tradicionais, a horários fixos e não possuem uma tabela de horários a ser seguida. O transporte sob demanda engloba todos os serviços públicos de transporte coletivo, mas com características flexíveis. Além da flexibilidade de rotas e horários, a facilidade com que pode ser solicitado, por meio de um smartphone, permite aos usuários uma maior aceitação a esse tipo de serviço. A diferença desse transporte coletivo para os ônibus regulares é exatamente a total resposta aos interesses do indivíduo. Não é o passageiro que se adapta à rota do ônibus, mas ele que flexibiliza a rota para atender o passageiro.

Goiânia é a primeira cidade da América Latina beneficiada pela iniciativa, já que o CityBus 2.0 se propõe a ser mais rápido, seguro e confortável para viagens coletivas. Conforme explica o consultor externo do projeto do CityBus 2.0, Miguel Ângelo Pricinote, o novo serviço utilizará a inteligência artificial para melhorar as rotas tornando-as mais ágeis para atender as demandas com precisão e reduzir o tempo de espera. “Aos poucos, o app vai traçando rotas melhores, mais ágeis, verificando onde há mais demanda e enviando os veículos para os locais. Dessa forma, o usuário que esperava em média 13 minutos pelo transporte, pode passar a esperar 10, oito minutos, e até menos do que isso, com o decorrer da utilização constante do app”, detalha.

Neste sentido, a HP dá um passo à frente e demonstra que o transporte público coletivo e a tecnologia devem ser aliados, pois a empresa é pioneira no setor com investimento numa modalidade que já está em operação em mais de 50 cidades ao redor do mundo e que une o conceito de transporte sob demanda com deslocamento de curtas distâncias em prol de seus novos usuários, que buscam formas mais modernas e eficientes de locomoção. “Todos temos responsabilidade com o trânsito e isso é fundamental para as mudanças urgentes que precisam acontecer no sistema. Os olhos precisam ser voltados para a priorização do coletivo”, ressalta a diretora Executiva da HP Transportes, Indiara Ferreira.

O Diretor de Transportes da HP, Hugo Santana, revela que para colocar os 14 mini-ônibus nas ruas, a HP investiu em inovação para desenvolver o serviço que será realizado em parceria com a Via, que oferta a experiência da sua plataforma digital em 50 cidades dos Estados Unidos, Europa, Ásia e Oceania, em que nessa jornada de inovação que durou cerca de dois anos, eles integraram ao Hub de inovação Gyntec/Pontoget em Goiânia. “Nesse período, parte da equipe da HP Transportes foi capacitada em metodologias que garantiram o desenvolvimento deste novo projeto. Em dois anos, a HP investiu cerca de R$ 5 milhões para a aplicabilidade do serviço e aquisição dos veículos, que, em sua fase piloto, irá empregar a mão de obra inicial de 30 motoristas com capacidade para atendimento de até 3.500 viagens por dia”, reforça Hugo.

A Via conta com mais de 40 milhões de viagens concluídas. "Estamos entusiasmados em fazer essa parceria com a equipe inovadora da HP para trazer a tecnologia da Via para o Brasil. O serviço CityBus 2.0 mostra como o transporte público coletivo e a tecnologia podem trabalhar juntos para tornar uma cidade mais inteligente. Os moradores de Goiânia agora têm uma maneira confortável, conveniente e acessível de se movimentar. Este é, de fato, um grande exemplo de uma cidade abraçando o futuro da mobilidade”, afirmou Daniel Ramot, CEO e co-fundador da empresa.

Nesta primeira fase, a partir de 11 de fevereiro, o atendimento do CityBus 2.0 será delimitado, no aplicativo, em uma área geográfica virtual denominada “Centro Expandido” que engloba 9 bairros como os Setores Central, Sul, Jardim Goiás, Universitário, Leste Vila Nova, Bueno, Oeste, Nova Suíça e Bela Vista.


De segunda a sábado, das 6 às 23 horas, o usuário solicita a sua viagem em tempo real, monitora a localização do veículo, com identificação do motorista, placa do miniônibus e, ainda avalia como foi a sua experiência. As paradas serão feitas em pontos virtuais. As linhas e horários são flexíveis. Todos os veículos são modernos, da marca Mercedes-Benz, zero km, confortáveis, portas automáticas, refrigerados com ar condicionado e acomodam 14 passageiros. A tarifa terá o valor mínimo inicial de R$ 2,50 e é variável pela distância percorrida pelo usuário. Ao fazer a solicitação, o aplicativo calcula a distância e informa o valor da viagem. O pagamento poderá ser feito pelo cartão de crédito ou em dinheiro.

Porque começar pelo Centro Expandido?

A área urbana compreendida no denominado “Centro Expandido de Goiânia” constitui-se em área comum de trajeto das linhas que tenham seu ponto de origem em qualquer uma das outras áreas operacionais da RMTC. 

A região possui vasta rede bancária, comercial, instituições de ensino, serviços de saúde e lazer que são importantes polos de geração de viagens, e por ser ponto de convergência da RMTC, os deslocamentos de curta distância por transporte coletivo são inexpressivos - dado o preço elevado da tarifa do serviço convencional e qualidade ofertada - em que esta demanda potencial buscou outras formas de se se locomover, seja por automóvel próprio ou por meio de aplicativos de transporte individual de passageiros.

Segundo a Pesquisa Origem e Destino da RMTC feita em 2017, a demanda cativa da RMTC é caracterizada por deslocamentos de média e longa distância. Somente no município de Goiânia, no pico da manhã são ofertadas mais de 82 mil viagens, em que as maiores concentrações de demanda estão nas áreas periféricas da cidade, cujos fluxos convergem-se para o centro-sul da capital - área piloto para os testes do Citybus 2.0.

OD Goiânia - pico manhã

A Pesquisa Origem e Destino da RMTC permitiu uma análise da distribuição das viagens por transporte coletivo, por município de origem conforme a sua distribuição interna e para outros municípios. A análise dos tipos de fluxo também foram objeto do levantamento, em que revelou-se um grande número de deslocamentos perimetrais e locais contrapondo o desenho da rede majoritariamente radial. Como transporte local, o Citybus 2.0 vem atender esta demanda carente de um serviço de transporte.

Fluxograma de deslocamento - Goiânia

A implantação do Citybus 2.0 é marcada pelo seguinte cenário local: com mais carros nas vias, a velocidade do tráfego dos ônibus regulares reduziu em mais de 30% nos últimos 5 anos chegando a 8km/h em algumas das principais avenidas fazendo com que o transporte público coletivo seja menos atrativo à população. 

No horário de pico da manhã, a velocidade média dos ônibus no Centro Expandido de Goiânia chega no máximo a 18 km/h. A região é um dos principais polos de atração de viagens e ponto de convergência da RMTC. No pico da tarde, a situação agrava-se chegando a 16,8 km/h. 

Grande parte dos custos dos sistemas tem relação direta com a velocidade dos ônibus. O tempo perdido no trânsito implica menor pontualidade das linhas, em superlotação dos ônibus e na má adequação da oferta de veículos diante da demanda de passageiros.

É preciso os coletivos terem exclusividade na via para haver a velocidade operacional, que significa eliminar a ociosidade do tempo do ônibus parado no trânsito disputando com carros o mesmo sistema viário. Isto irá resultar em menor tempo de espera nos terminais e pontos de ônibus, viagens mais rápidas, melhor aproveitamento da frota e menor lotação nos veículos.

Além disso, em vias congestionadas o consumo de combustível pode subir até 30% em relação ao consumo que ocorre em circulação livre. Mais ônibus nas ruas, além de formarem comboios, implica num aumento de custos com pessoal, manutenção e insumos; que é diluído na composição da tarifa.

Sobre a Via

A Via está redesenhando o transporte público coletivo, de um sistema de rotas e horários rígidos para uma rede sob demanda totalmente dinâmica. O aplicativo móvel da Via conecta vários passageiros que seguem o mesmo caminho, permitindo que os passageiros compartilhem facilmente um veículo. Lançada pela primeira vez em Nova York em setembro de 2013, a plataforma Via opera nos Estados Unidos e na Europa por meio de sua joint venture com a Mercedes-Benz Vans, ViaVan. A tecnologia da instituição também é implantada em todo o mundo através de dezenas de projetos parceiros com agências de transporte público, operadores de transporte privado, frotas de táxi, empresas privadas e universidades, integrando-se perfeitamente à infraestrutura de transporte público para impulsionar a mobilidade sob demanda.

Sobre a HP Transportes

Criada em 1969, a empresa atua no segmento de transporte público coletivo na Região Metropolitana de Goiânia. Atualmente, a HP Transportes oferta mais de 2.200 viagens por dia útil, transportando 130 mil passageiros por dia, nas 136 linhas compartilhadas que servem ao Arco Sul da Região Metropolitana de Goiânia que inclui Goiânia, Aparecida de Goiânia, Hidrolândia e Aragoiânia, percorrendo mais de 65.000km/dia. 

A empresa emprega 1.100 colaboradores diretos, e gera aproximadamente 4.000 empregos indiretos. A HP Transportes acumula ao longo dos anos premiações que certificam sua excelência na gestão. Uma gestão participativa voltada para satisfação dos clientes, que já foi premiada pela ANTP, pelo Movimento Goiás Competitivo; Prêmio Goiás de Gestão Ambiental pela FIEG; e de qualidade de vida no trabalho pelo respeito e ações que desenvolve com seus colaboradores, concedido pela Sodexo, entre outros.

Também fazem parte do grupo a Urbi Mobilidade Urbana, uma das cinco concessionárias do transporte coletivo de Brasília e um centro de serviços compartilhados, o SiAN, ambas instituídas em 2014.

A HP Transportes Coletivos participa do Programa Jovem Aprendiz que tem parceria com o Projeto Recode, que promove ações sociais em creches, orfanatos e asilos em datas comemorativas com a disponibilização de ônibus para realização de atendimentos especiais nessas instituições. 

A empresa leva a sério a sua contribuição com a preservação do meio ambiente e coloca em destaque o seu programa para redução de CO2. O programa PRIMO, desde 2012, o programa já contribuiu para a redução de 6.900 toneladas de CO2, que seriam necessárias 34.290 árvores para absorver esse CO2 se fosse emitido. 

Empresa também é certificada pelo Programa Despoluir do Sest/ Senat por garantir que a emissão de CO2 da frota esteja dentro dos limites legais. Possui também outras ações para preservação de recursos naturais como reciclagem de água, bacia de contenção para tanques de combustíveis e destinação correta dos resíduos gerados às empresas de reciclagem.