DF: Pesquisa da Codeplan aponta redução do uso do ônibus pela população e forte centralização das atividades econômicas no Plano Piloto

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Por Rafael Martins

O percentual de pessoas que utilizam o ônibus para se deslocar ao trabalho teve uma retração de quase 3% nos últimos três anos. Os dados são da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios 2018 (PDAD), divulgada pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), em que 35,8% da população ocupada tem o ônibus como principal meio de transporte. No levantamento anterior, 38,07%  utilizavam o ônibus para ir ao trabalho. Apesar da queda, o desempenho é melhor que o registrado em 2010, quando apenas 31,8% da população empregada realizavam as viagens por ônibus. Já o número de pessoas que deslocam-se de metrô saltou de 2,64% em 2015 para 3,4% em 2018.

No entanto, o uso do automóvel teve um crescimento expressivo em três anos, representando 44,6% dos deslocamentos para o trabalho em 2018, ante 41% em 2015. Segundo projeções da Codeplan para 2025, apesar da recessão, a tendência é que nos próximos anos haja um aumento progressivo da frota de automóveis no Distrito Federal.


Associando a melhora do cenário econômico, constata-se que com o crescimento da renda da população há um aumento da taxa de motorização, e por consequência a evasão de passageiros no sistema de transporte público. Na perspectiva mais otimista da economia, o Distrito Federal poderá chegar em 2025 com quase 3,5 milhões de automóveis nas ruas. 

Em 2017, houve uma queda de quase 9% no número de passageiros transportados, o que ratifica os dados da PDAD quanto a retração na utilização do ônibus como meio de transporte para ir ao trabalho. A demanda registrada em 2016 foi de 361,5 milhões de passageiros, enquanto em 2017 transportou-se 329 milhões. 

Entretanto, um dos fatores que preocupam as empresas de transporte urbano no DF é o número de passageiros por quilômetro rodado, o chamado IPK. A partir desse índice é permitido identificar quanto de receita é gerado por linha. Isso quer dizer que o número de passageiros que utiliza o transporte é diretamente responsável pela arrecadação de receitas. 

A tabela abaixo demonstra o índice de passageiros entre 2005 e 2017. De janeiro a junho de 2018, o IPK médio das cinco concessionárias de ônibus do DF ficou em 1,36 - resultado da operação de 786 linhas com uma demanda de 142,6 milhões numa quilometragem prevista de 107,3 milhões. Com 10 linhas em operação, a estatal TCB atingiu o IPK de 2,00 - transportando quase 1,5 milhão de usuários numa quilometragem de 718 mil. As cooperativas apresentaram o pior índice: um IPK de 0,48 - com uma quilometragem de 12,6 milhões, porém com uma demanda de 6 milhões de passageiros em 37 linhas. Sendo assim, o IPK médio do STPC/DF no primeiro semestre de 2018 foi de 1,28. 

Já o metrô teve um crescimento de 144 mil passageiros transportados em 2015 para 162,2 mil em 2018; todavia o modal opera em sua capacidade máxima nas atuais condições. Desta forma, a PDAD 2018 contabiliza que 39,2% da população utiliza transporte público para ir ao trabalho, enquanto na rodada anterior, a taxa de utilização chegava a 40,7%. 


Segundo estimativas da Codeplan para 2020, regiões administrativas como Riacho Fundo II, Paranoá e São Sebastião estão entre as que mais receberão novos moradores, por conta de programas habitacionais do governo e novos empreendimentos imobiliários. Ceilândia, Samambaia, Taguatinga, Planaltina e Plano Piloto também terão expressivos aumentos populacionais. As cidades crescem, a população aumenta, e essa população cria uma alta demanda por infraestrutura básica e principalmente por transporte. Assim a rede de transporte, de uma forma até compulsória, acompanha o crescimento da cidade, já que o primeiro equipamento público que chega é o ônibus. Se não tiver densidade na região, não tem transporte, e se há o transporte o seu custo é caro. Conforme destacado pelo Pense Mobilidade em novembro de 2018, com base em área urbanizada e sua distribuição no território da cidade, Brasília tem a perspectiva de maior crescimento urbano para os próximos dez anos em todo o país.


Outro fator que determina o uso do modal de transporte ao trabalho são os fluxos entre moradia e local de emprego. Mesmo que as regiões administrativas consolidem seu crescimento, a alteração no perfil de determinada região modifica a dinâmica do planejamento da rede. O que impacta a rede de transporte não é o simples crescimento/expansão da cidade, mas sim o seu uso do solo, ou seja, o transporte desenvolve a medida que o uso do solo se altera. Se por exemplo, sem alterar tamanho da cidade, uma zona deixa de ser residencial e passa a ser comercial, a rede se altera mesmo sem o crescimento espacial da cidade.

Apesar do Distrito Federal enfrentar sérios problemas relacionados à mobilidade da população, ainda é forte a concentração dos empregos no Plano Piloto, visto que não houve alteração significativa nos percentuais nos últimos três anos: de 41,53% em 2015 para 41,2% em 2018. A estabilidade nos índices foram registradas também em Ceilândia, Planaltina e Gama - regiões que configuram-se também como importantes centralidades para a região do Entorno Metropolitano. 

A PDAD identificou o aumento no número de postos de trabalho em Taguatinga, Águas Claras, Guará e Lago Sul. Samambaia, que junto com Ceilândia e Taguatinga formam a centralidade secundária do Distrito Federal, registrou queda: de 3,49% para 2,9%. Ainda assim, as três cidades juntas representam 17,3% do total de postos de trabalho no DF. 

Dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego no Distrito Federal (PED) indicam que entre novembro de 2017 e novembro de 2018, o número de postos de trabalho cresceu 2,8%. Segundo o levantamento, contribuíram para esse índice o setor de serviços que é responsável por 73,3% do total de ocupados no Distrito Federal — com desempenho positivo de 4,4%. Os setores que mais registraram elevações foram os de saúde e serviços sociais (16,9%); educação (10,4%) e transporte, armazenagem e correio (8%).

A taxa de desemprego total variou de 18,4% em outubro de 2018 para 18,5% em novembro. 

Em relação a novembro de 2017, a quantidade de desempregados aumentou em 10 mil pessoas. Isso ocorreu porque 47 mil pessoas entraram na população economicamente ativa, mas o acréscimo de ocupação foi inferior — de 37 mil trabalhadores. De acordo com a Codeplan, um dos órgãos que participam do estudo, a situação é de relativa estabilidade.

O gráfico abaixo ilustra o percentual de postos de emprego nas principais centralidades econômicas do DF, de acordo com a PDAD 2011, 2013, 2015 e 2018. Apesar da queda de participação do Plano Piloto, a região tem no funcionalismo (federal e distrital) como um dos principais empregadores. Todavia, entre novembro de 2017 e novembro de 2018, o nível ocupacional na Administração Pública teve uma retração de 2,7%, seguida dos serviços domésticos (-8,8%). Além disso, setores como indústria e agropecuária têm um peso menor na estrutura produtiva do DF em comparação a outras unidades federativas, o que amorteceu os impactos da crise econômica a partir de 2015.


Contudo, é preciso considerar que essas variáveis (taxas de população empregada e estudantil) influenciam na quantidade de passageiros transportados no sistema de ônibus e metrô, dado que o aumento do número de pessoas empregadas e que estudam geram obrigatoriamente a necessidade de deslocamentos da população para atender a esses desejos de viagens. Esses novos deslocamentos não necessariamente são feitos mediante transporte público; há outros modais como a pé, de bicicleta, ou automóvel, que concorrem com o ônibus na captura desses deslocamentos.


É basilar destacar que o Plano Diretor de Ordenamento Territorial do Distrito Federal (PDOT) tem por diretrizes descentralizar as atividades econômicas no Plano Piloto; promover uma maior compacidade nas áreas urbanas existentes; estruturar a urbanização ao longo dos corredores de transporte, proporcionando soluções de transporte coletivo eficientes; e adensamento do vetor sudoeste como preferencial para expansão das ocupações urbanas. A estruturação de novas centralidades é proposta em locais adensados e ao longo dos eixos metropolitanos.

O levantamento da Codeplan versou também sobre o tempo gasto pela população em deslocamento para o trabalho e mostra que 26% das pessoas que trabalham gastam até 30 minutos no deslocamento ao trabalho, e 27% fazem o trajeto entre 15 e 30 minutos. Cerca de 20,2% da população gasta entre 30 e 45 minutos para chegar ao trabalho. Nesta análise não houve a divisão de tempo gasto por modal, mas sim índices gerais de deslocamento considerando todos os meios de transporte. Chama atenção o fato de que em quarto lugar estão as pessoas que gastam entre 45 minutos e uma hora para irem ao trabalho, somando 12,9% dos que trabalham.

Quanto ao modo ônibus, dados de 2017 do Observatório Territorial mostram que o tempo médio de deslocamento chega a 47 minutos. O parâmetro para a escolha das linhas para o estudo deu-se por base de frequência de atendimento. No horário de pico, foram selecionadas as linhas com número de viagem programada acima de 20 viagens diárias; e no horário entrepico as linhas com número de viagem programada acima de 5 viagens diárias. Conforme descreve a Codeplan, o Moovit tem por característica estimar os intervalos de tempos de deslocamento em separado. Para uma análise mais segura, o cálculo do tempo médio de viagem entre a origem e o destino só faz sentido se a distribuição dos tempos medidos tiver uma forma suficientemente regular, sem considerar elementos intervenientes, tais como o trânsito/engarrafamento, por exemplo. A análise dos dados da Codeplan e Moovit foram divulgadas em abril de 2018 em reportagem no Pense Mobilidade.

A Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) é uma pesquisa bianual feita pela Codeplan e apresenta um diagnóstico demográfico, social, econômico e urbano do Distrito Federal e já foi realizada nos anos de 2004, 2011, 2013 e 2015. A Pesquisa de Emprego e Desemprego no Distrito Federal é feita pela Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos do Distrito Federal, pela Codeplan e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

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