Anápolis: A construção do Terminal Urbano - localização estratégica e atendimento às novas demandas da cidade

Terminal Urbano - 1986
Por Rafael Martins

Andar a pé diante de muita poeira (ou lama) ou charretes. Haviam os táxis - chamados na época de carros de praça - porém eram pouco utilizados pela população. Até o início da década de 1960, essas eram as opções para se locomover pela cidade antes da implantação de um serviço de transporte coletivo.

Em junho de 1953 foi aprovada, posteriormente promulgada pelo Executivo Municipal em novembro, a Lei Nº 11 que criou o serviço de transporte coletivo em Anápolis, bem como autorizava uma concorrência pública para sua exploração por um prazo de cinco anos.

O documento redigido à mão determinava a circulação de ônibus a partir da Praça Bom Jesus para a região da Vila Góis, Bairro Jundiaí, Avenida Tiradentes, Vila Jaiara e Vila Fabril, interligando estes setores à região central da cidade. Cada bairro atendido deveria ter no mínimo 10 horários diários, preferencialmente de manhã e à tarde.

Lei Nº 11/1953

Na década de 1950, a cidade tinha em média 50 mil habitantes. A construção da capital Goiânia bem como a chegada da ferrovia em 1935 fez Anápolis experimentar um relevante crescimento populacional, assim como sua mancha urbana. Enquanto em 1930 a ocupação dos 30 mil habitantes estava restrita a área central da cidade, em 1950 Anápolis cresceu em direção ao norte (Jaiara) de forma mais expressiva, em em menor grau para a região leste (Jundiaí).

Sete anos depois de sancionada é que a Lei nº 11/1953 veio ser cumprida. Isto porque em 1960 foi aberta a primeira concorrência pública para exploração do transporte coletivo. Vencido pela Expresso Cunha, a mesma abandonou o serviço poucos dias depois de assumir a concessão devido a incapacidade operacional. A segunda colocada do certame, a Expresso Alvorada, assumiu o serviço. 

Adquirida por João Queiroz, a Expresso Alvorada passou a se chamar TCA (Transportes Coletivos de Anápolis) em 1963. O contrato isentava a empresa de qualquer tributação municipal, porém estudantes, operários e funcionários públicos da Administração Municipal teriam desconto de 50% na tarifa. 

Os ônibus operavam o grosso do serviço. Haviam poucas linhas, a cidade era pequena (68 mil habitantes), entretanto a operação esbarrava-se na falta de infraestrutura para os coletivos circularem. Em razão de uma fábrica de tecidos, havia significativa demanda de passageiros para a Vila Jaiara, sendo que a primeira linha de ônibus criada ligava o referido bairro ao centro da cidade.

Frota TCA - 1964

A estrutura operacional do transporte coletivo permaneceu desta forma até 1976, quando o "terminal" foi transferido da Praça Bom Jesus para a Praça Americano do Brasil. Apesar da mudança, os embarques ocorriam a céu aberto sem o mínimo de conforto e segurança. Esta situação improvisada perdurou por 10 anos, quando em 1986 foi construído o Terminal Urbano.

As mudanças operacionais no transporte urbano de Anápolis na década de 1970 ocorreram por diversos fatores. Com a instalação da Base Aérea (1972) e do Distrito Agro Industrial de Anápolis - Daia (1976), a cidade passou por uma intensa expansão urbana e crescimento populacional, superando a marca de 105 mil habitantes. A ferrovia que era símbolo do progresso, tornou-se um obstáculo.

A Lei nº 492 de 14/09/1974 determinou a retirada dos trilhos entre a Estação de Castilhos e a Estação Central. Diante disso, em 1976, a estação de trem de passageiros no Centro foi desativada e os trilhos da linha férrea retirados. A justificativa na época é que diante do crescimento da cidade, alguns trechos da linha no perímetro urbano haviam se tornado perigosos e inadequados à realidade de Anápolis, cada vez mais motorizada.

Terminal Urbano

Em 21 de agosto de 1986 foi promulgada a Lei nº 1389, que criou o Sistema Integrado de Transporte Coletivo advento da construção do Terminal Urbano, atrás do antigo parque de manobras da Estação Ferroviária, ao lado da Praça Americano do Brasil. Criou-se um sistema radial com total integração das linhas existentes e das que viessem a ser implantadas e que funciona da mesma forma até hoje.

A localização estratégica escolhida para se construir o Terminal Urbano em 1986 não foi por acaso, já que o viário da cidade estruturou-se de forma radial: as avenidas que ligam os bairros mais populosos ao centro de Anápolis, tais como a Mato Grosso, São Francisco/JK, Brasil, Pedro Ludovico, Goiás, Tiradentes, Fernando Costa/Presidente Kennedy e Universitária são exemplos de avenidas que comportam as principais linhas de ônibus em direção ao quadrilátero central (onde está o Terminal Urbano), em que estão concentrados a rede comercial, agências bancárias, hospitais, as agências do INSS e dos Correios; entre outros serviços que configuram-se como pontos de atração de viagens.

A lei determinava que o custeio das obras e intervenções na estrutura do Terminal, bem como a gestão, administração e manutenção do prédio seria da TCA. 

Em 1987 por meio da Lei nº 1.455, o local passou a se chamar Terminal Rodoviário Urbano Dr. Bernardo José Rodrigues, todavia, o espaço é comumente chamado de Terminal Urbano.

Terminal Urbano 02

A forma inicial de uma rede de transporte público urbano é uma “estrela” cujos raios se irradiam a partir do núcleo central, cada um deles sendo representado por uma linha radial. Entretanto, com o crescimento da área urbana, os deslocamentos entre pontos opostos à área central começam a ficar mais frequentes, obrigando a implantação de linhas diametrais para reduzir o número de transferências entre linhas na área central.

Apesar de ter sido inaugurado em 1976, o Daia se consolidou a partir de 1984 graças aos incentivos fiscais do programa FOMENTAR. Com a atração de empresas, o distrito tornou-se o segundo maior polo de atração de viagens - demandando da TCA e administração pública a criação de linhas diretas dos bairros para o local. De início, apenas Jaiara e Recanto do Sol tiveram o serviço direto implantado nos horários de pico.

A implantação de linhas diametrais exige demanda de igual intensidade dos dois lados da área central, para possibilitar um bom balanceamento na frequência dos serviços; caso tal não ocorra, deve ser criada uma linha radial (no lado com maior demanda) para complementar a linha diametral (atendendo à demanda remanescente). A pendularidade das linhas diametrais do Daia faz com que os polos atratores de viagens recebam ônibus cheios no pico, mas obriga estes ônibus a voltarem aos seus pontos de origem quase que sem passageiros.

Cinco anos depois da inauguração do Terminal Urbano, a Administração Municipal já planejava construir um segundo terminal urbano de passageiros. A Lei de Diretrizes Orçamentárias de 1991, que tem como objetivo apontar as prioridades do governo para o próximo ano, previa não só um novo terminal, bem como a construção de 300 abrigos nos pontos de ônibus - o que não ocorreu.