Goiânia: Uma operação diferente para combater a evasão de receita nos ônibus

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Por Rafael Martins

A minha saga começa em 9 de novembro de 2017, quando a convite da Viação Reunidas sou chamado para participar no dia seguinte de uma ação inédita de combate a evasão de receita nunca noticiada pela imprensa, até agora.

Quem anda de ônibus na Grande Goiânia já viu algumas dessas cenas: passageiro entrando pela porta de trás, pulando ou passando por baixo da catraca, entrando nos terminais na saída destinada aos ônibus, desembarcando pela frente sem pagar a passagem, e até mesmo passando o cartão do passe livre para outras pessoas.

O que pouca gente sabe ou já parou para pensar é que essas atitudes são as responsáveis por um problema chamado “evasão de receita”. Ela acontece sempre que uma pessoa sem direito ao passe livre (isenção, por lei, de pagamento de tarifa) deixa de pagar a passagem ou quando existe o pagamento da tarifa, mas ele não é registrado no sistema.

Diante de tal cenário, a Reunidas montou uma equipe para cessar estas ações, porém com um diferencial: as abordagens nos ônibus são de caráter educativo, conforme será relatado adiante.

10 de novembro. Goiânia permanece nublada, porém com forte possibilidade de chuva e a bordo da linha 178, que liga o Terminal Praça A ao Jardim Curitiba, penso como farei caso caia o temporal que estava a se formar na região do Jardins do Cerrado - meu primeiro destino.

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Assim que chego à Reunidas, sou apresentado aos supervisores de transporte, Roque e Wellington - que seriam os responsáveis pela ação do dia, que consiste em acompanhar os ônibus em linhas críticas com alto índice de evasão, ponto a ponto, e verificar o embarque/desembarque dos usuários. Em caso de alguma irregularidade, os supervisores entram nos ônibus e atuam orientando passageiros e motoristas sobre a proibição de andar de carona no transporte coletivo, e com diálogo buscam convencer os infratores a embarcarem corretamente nos ônibus pela frente passando pela catraca.

O relógio marca 10h12 quando saímos da garagem da empresa. No caminho ao Jardins do Cerrado, Roque me conta que esta ideia surgiu em 2016 e foi colocada em prática no mesmo ano devido ao alto número de evasões nos ônibus das empresas que operam a Área Oeste - Viação Reunidas e Rápido Araguaia.

"Não trata-se de coibir, no sentido coercitivo, mas é pra conscientizar o passageiro de que se ele não pagar a passagem, está prejudicando a si mesmo. Da mesma forma se ele pula ou passa por baixo da catraca e vende o Passe Livre, que cedo ou tarde, vai ser bloqueado por uso indevido. Nós entramos nos ônibus e até por questão para não atrasar a viagem, fazemos uma palestra bem rápida sobre os prejuízos que estas ações causam", explica Roque.

As palestras não estão restritas dentro dos ônibus, mas também chegam as escolas. "Conversamos com o diretores, coordenadores e levamos para a sala de aula um material com fotos e vídeos destas ações de evasão e principalmente vandalismo", detalha Wellington.

Ao passarmos pelo Terminal Padre Pelágio, Roque conta que depois que estas diligências começaram, os índices de evasão nas regiões onde foram feitas estas ações diminuíram e que ainda são lembrados por tais feitos. "Uma vez fizemos esse combate no Balneário no horário da noite em pontos próximos a escola. Ficamos monitorando a paisana como agiam, e constatamos que muitos dos vândalos eram reincidentes e usavam tornozeleira, e o pior, ostentavam com orgulho ela. Pulavam catraca, forçavam a porta, arrancavam as calhas das luminárias. Ficamos uns dois meses lá, todos os dias combatendo e fazendo palestra. Os índices diminuíram muito naquele local depois disso"

A viagem ao Jardins do Cerrado segue e Roque pergunta se tem ônibus na linha 338, que atende o bairro a partir do Terminal Vera Cruz. Consulto o Olho no Ônibus e vejo que um retorna para o Terminal, e que o próximo saíra em 20 minutos - tempo este para chegarmos com folga ao setor. Passamos pelo ônibus que havia visto no aplicativo.

Wellington e Roque lembram-se de outro caso, desta vez em Trindade no Residencial Santa Fé, cujo setor recebeu uma linha de ônibus em julho deste ano. "Ali também era um ponto crítico, principalmente no horário da manhã. Muito estudante entrando por trás e tendo o benefício do Passe Livre, além do vandalismo. Fizemos da mesma forma que no Balneário e tivemos sucesso nos resultados", conta Roque. "Vezes ou outras que reforçamos uma região ou outra para lembrar que estamos vigilantes", diz Wellington.

O maior número de ocorrências são em horário escolar - cujo período crítico são nos picos da manhã e noite. A medida de combate também é uma reivindicação dos motoristas que em seu dia a dia deparam-se com os puladores de catraca e muitas vezes não interferem no ato por receio de represálias. "Atualmente estamos focados na região do Cerrado, Vera Cruz e Goiânia Viva, que são as regiões mais difíceis. Começamos 5h30 até 7h e depois das 10h30 até 13h e no pico da tarde, que é o pior horário. Quando não estamos, motoristas se queixam que ninguém respeita e eles não chamam a atenção por medo, já que estão naquela linha todos os dias", desabafa Roque.

Às 10h46 avistamos o ônibus da linha 338, e como procedimento padrão, o carro segue atrás do ônibus por todo o itinerário.

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Os motoristas, na tentativa de evitar que alguns passageiros entrem pela porta de trás, muitas vezes efetuam o desembarque alguns metros antes do ponto de parada.

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O carro em que estamos ultrapassa o ônibus antes de seguir para o embarque, para na frente do coletivo e os supervisores começam a observar os passageiros entrando e se passam pela catraca.

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Por todo o itinerário, ponto a ponto, é feito esta observação do embarque e desembarque dos passageiros.

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Neste ponto, uma senhora com um carrinho de feira entra pela porta central para colocar o carrinho. O supervisor aguarda ela desembarcar para entrar pela frente, o que não ocorre.

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Entramos no ônibus, conversamos com os passageiros rapidamente e orientamos a referida senhora a descer e efetuar o embarque corretamente, já que ela tinha o benefício da gratuidade de idoso.

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Os próximos embarques da linha 338 ocorreram sem problemas, e seguimos o ônibus até o final do seu trajeto pela Avenida Brasil.

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Um dos problemas estruturais no Jd. do Cerrado identificados foram a ausência de cobertura nos pontos de parada. Alguns são sinalizados por uma placa indicando que ali para ônibus, em outros o poste está pintado de preto e amarelo. Dados do diagnóstico do Plano Diretor Integrado da Grande Goiânia, em elaboração, mostram que dos 3500 pontos de ônibus em Goiânia, cerca de 2000 são cobertos.

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Roque decide ir para o Jd. do Cerrado VII. Faltavam 15 minutos para o ônibus entrar no setor. Dali consigo avistar toda a cidade e imediatamente vêm a questão do quão espraiada a capital é, e seus impactos na rede de transporte que já debati diversas vezes aqui.

Goiânia

O ônibus da Viação Reunidas da linha 344 passa por nós e logo no primeiro ponto presenciamos três passageiros entrando pela porta traseira, isto porque o motorista desceu para desembarcar um cadeirante.

A invasão de usuários pela porta de saída chegam a comprometer o desembarque seguro dos outros usuários, que realizam o devido pagamento da tarifa.

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Enquanto o motorista auxilia o cadeirante, os supervisores entram no ônibus e pedem para os passageiros que embarcaram irregularmente descerem e entrarem pela porta da frente.

Diferente do Jardim do Cerrado, desta vez houveram reclamações sob a justificativa que não tinham o Sitpass, e que já pagavam caro por andar de ônibus.

No bairro não há nenhum ponto de venda de recarga do Sitpass, somente no setor vizinho. 

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A linha que atende o Residencial Cerrado VII é privilegiada por ter em todo seu itinerário paradas de ônibus com cobertura, com exceção de um único local devido a falta de espaço para se instalar uma estrutura de uma parada de ônibus.

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A chuva que eu temia horas antes começa a cair e seguimos o ônibus até a GO-060 e tudo ocorre dentro da normalidade.

Próximo destino: região do Goiânia Viva e a problemática linha 307. Inclusive o trajeto desta linha passa por enormes vazios urbanos e trechos com asfalto completamente irregular, cheio de trepidações e remendos, cuja pista é simples numa região de alto tráfego.

Cabe lembrar que a irregularidade no pavimento contribui não só para um consumo maior de combustível, mas também acelera o desgaste das peças e componentes dos veículos. Falta de priorização viária e condições severas na operação contribuem para um maior gasto na manutenção da frota.

Um dos locais mais sensíveis no que tangem as ações de evasão e também depredação dos ônibus é no ponto próximo ao Bretas do Bairro Goiá. Chegamos antes do horário de saída dos alunos, por volta de 12h.

Alguns destes alunos que fazem arruaça dentro do ônibus são velhos conhecidos dos supervisores. "Inclusive quando veem o carro, saem correndo ou evitam embarcar no ônibus que estamos monitorando", dispara Wellington.

E a afirmação dele foi comprovada. Os alunos que estavam esperando o 307 no ponto da Rua da Alegria, atrás do supermercado, correram para a outra avenida, no ponto em frente ao Cais do Bairro Goiá para embarcar na linha 590.

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O motorista da linha 590 ao longo de todo o trajeto para o Terminal Goiânia Viva, efetua os desembarques antes do ponto de parada, mesmo com a vigilância dos supervisores.

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Sem qualquer contratempo na linha 590, voltamos para o extremo oeste da capital para uma das linhas com grande índice de evasão e vandalismo: 324 e 701.

Estas linhas saem do Terminal Vera Cruz e atendem uma grande quantidade de bairros, com partidas alternadas entre elas - a 324 faz o percurso sentido horário, enquanto a 701 o oposto.


Alcançamos o ônibus da Reunidas ainda no começo do itinerário, e o motorista percebe nossa presença e dá o sinal, que Roque entende que há arruaceiros dentro do ônibus.

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Andamos a uma distância sem que percebam nossa presença, porém no primeiro desembarque, escorados nas portas e janelas, veem o carro. Sem qualquer intimidação fazem gestos obscenos e algazarra - para mostrar que estavam ali.

O ônibus segue pela rota e a na próxima parada consigo ver a porta toda empenada e um grupo na janela a nos observar, quando novamente o motorista dá um segundo sinal. Eles descem e nos encaram dentro do carro. Assim que o ônibus segue o itinerário, vejo pelo retrovisor que ainda encaravam e riam de deboche, na certeza que fariam tudo de novo no dia seguinte.

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Chegamos num vazio urbano, bem quase... trata-se de uma via de ligação para um residencial de casas e apartamentos populares (Residencial Bertim Belchior), de pista simples sem qualquer infraestrutura de parada de ônibus, porém o ponto é movimentado.

Como de praxe, o motorista efetua o desembarque antes do embarque. Neste momento percebo o quanto uma câmera pode ser intimidadora. Somente neste ponto fui encarado umas três vezes enquanto os passageiros embarcavam.

Ao meu lado, Roque brinca dizendo que deveria ir mais vezes, pois nem sempre o pessoal respeita as orientações. "Muitas vezes quando entramos no carro e seguimos para o próximo ponto, eles aproveitam e passam por baixo da roleta", comenta.

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Seguimos para o ponto de retorno da linha 324, em frente ao Condomínio Residencial Bertim Belchior.

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O ponto estava cheio e advinha quantos embarcaram? Cinco alunos e mais três pessoas que aguardavam. "Esses aí vão esperar o 701 para pular a catraca, eles já nos conhecem", conta Roque, enquanto o grupo atravessava a rua para a portaria do condomínio.

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Ao mesmo tempo que tirava foto do ponto avariado, Roque chama minha atenção para o objeto do meu lado: uma calha da luminária de um ônibus. "Te falei, eles tiram dos ônibus para surfar", comenta Wellington.

Luminária

Dali até o ponto final da linha 052, onde há um colégio, seguimos o procedimento de observação e orientação dos embarques e desembarques.

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Ainda há passageiros antes da catraca na linha 324. Roque me explica que muitas vezes eles ficam ali não por falta de Sitpass, mas sim para pular ou passar por baixo da catraca depois que vendem para outra pessoa a viagem contida no cartão. "Já verificamos que quem faz mais isso são pessoas que possuem alguma gratuidade e querem lucrar para si em cima do benefício concedido".

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Reta final da viagem. Do ponto final do 052, continuamos observando o ônibus que efetua poucas paradas até o Terminal Vera Cruz.

Terminal Vera Cruz

Já no terminal, os supervisores observam ainda o embarque dos passageiros dentro do ônibus para passar na catraca. Assim que todos passam, o motorista sai e respira aliviado. "Quem dera se todos os horários fossem assim, com essa vigilância. A viagem foi bem mais tranquila".

Aproveito o pequeno tempo que ainda me resta e apuro os estilhaços que vi no embarque do Eixo. Um encarregado do Terminal me informou que um ônibus da Rápido Araguaia havia sido apedrejado no trajeto da 701.

Alguns motoristas me abordaram e revelaram uma rotina de apreensão e medo em determinados horários. "A gente vê muita irregularidade, mas não fala nada por medo de uma reação violenta deles. Hoje mesmo na parte da manhã teve arrastão com um grupo encapuzado. O problema é muito maior do que pular uma catraca", desabafa um motorista.

Números

Dados da Viação Reunidas revelam que quase 43% das ocorrências são embarque pela porta traseira, seguido de passar por baixo da catraca (33,6%) e pular a catraca (14%). Para a apuração foram utilizadas as imagens das câmeras a bordo dos ônibus, já que 100% da frota da empresa conta com o equipamento.

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A partir das imagens é possível analisar e apurar quais são as linhas com os maiores índices e direcionar estas ações de combate a evasão que foram descritas acima.

As fraudes em decorrência do uso irregular de algum cartão Sitpass são um problema antigo. A prática consiste em o usuário embarcar na parte dianteira do ônibus sem transpor a catraca e ali aguarda algum passageiro que não tem créditos no cartão (passe livre) para efetivar a venda de uma passagem. Isso significa que esse usuário fraudador está sendo transportado de graça e revertendo o dinheiro da passagem para si mesmo.

A evasão gera prejuízos não só para as empresas que atuam no negócio e para o governo, que subsidia parte das tarifas, mas também para os passageiros, que poderiam pagar menos se a evasão fosse reduzida ou se ela não existisse. Sem evasão, aliás, as empresas poderiam aumentar o seu poder de investimento.

Parte do custo com manutenção dos ônibus é destinado a reparos oriundos de vandalismo, em que as ocorrências mais comuns são:

- bancos quebrados/cortados;

- calha das luminárias arrancadas e jogadas fora;

- teto solar quebrado;

- vidros quebrados e ou janelas arrancadas;

- vazamento de ar no sistema de porta

- haste das portas tortas (as pessoas impedem que a porta se feche e afetam o sistema de acionamento)

- quebra dos tampões, vidros das janelas e portas dos ônibus

- pichações

O custo com as reformas e trocas de equipamentos é de aproximadamente R$ 80 mil reais por mês.