Goiânia: Como o crescimento desordenado impacta no planejamento de transporte? - Um estudo de caso da Área Oeste da RMTC

Viação Reunidas - 30028
Por Rafael Martins

A área operacional Oeste da RMTC abrange o atendimento de transporte coletivo de oito municípios: Trindade, Guapó, Goianira, Brazabrantes, Abadia de Goiás, Nova Veneza, Santo Antonio de Goiás e parte de Goiânia - em que residem aproximadamente 600 mil pessoas.

A região é caracterizada por forte espraiamento urbano e baixas densidades populacionais, reflexo do ritmo de crescimento acelerado dos bairros que compõem a região oeste da Grande Goiânia. Basta observar que nos últimos anos o número de loteamentos em Goianira cresceu ao longo da GO-070, rumo à Goiânia, e o mesmo ocorreu com Trindade na GO-060 em direção ao segundo núcleo urbano daquele município conhecido como Trindade II. Além disso, novos conjuntos habitacionais foram construídos isolados à malha urbana da capital, como por exemplo, o Jardins do Cerrado.

Ao relacionar a cobertura da rede de transporte e as densidades urbanas, percebe-se que há alguma coincidência entre a concentração de linhas e as altas densidades populacionais. Apesar de quase 600 mil pessoas residirem na Área Oeste, a sua distribuição pelo território dá-se de forma irregular - configurando numa região com forte espraiamento e horizontalização do tecido urbano - refletindo em baixas densidades. A rede de transporte acompanhou o crescimento das cidades, porém a demanda de passageiros não.

Tomando como referência a Praça Cívica, o diagnóstico do Plano Diretor Integrado da Grande Goiânia constata que áreas com elevadas densidades têm maior oferta de transporte coletivo. À medida em que o raio de atendimento do transporte coletivo amplia, as densidades caem, e por consequência a oferta de linhas torna-se mais escassa.

Até o raio de 10km, as densidades ainda são altas e médias altas com boa oferta de transporte coletivo. Entre dez e vinte quilômetros, as densidades diminuem mais, com exceção de bairros localizados na conurbação entre Goiânia e Aparecida de Goiânia.

Entre essas distâncias, pode-se identificar que a tendência de conurbação se materializa claramente no sentido de Goianira e Trindade, bem como que a disponibilidade de linhas é bastante reduzida.

Caracterização do serviço

A Área Oeste da Grande Goiânia abrange aproximadamente 280 bairros, com 89 linhas. Comparada com a extensão territorial atendida e a população, esta quantidade de linhas indica uma rede bastante racionalizada, mas com indícios de improdutividade operacional, face ao baixo adensamento populacional.

Apesar do quadro enxuto de linhas, a rede está estruturada no sistema tronco-alimentado, o que confere a existência de linhas com boas frequências de atendimento. Dados da Viação Reunidas mostram que são ofertadas aproximadamente 70 mil viagens/mês. As linhas alimentadoras e semiurbanas respondem por 58,8% da oferta, sendo a outra metade ofertada em linhas estruturais, predominantemente nas linhas de eixo, com 41,2%.

Nos horários de pico, o tempo médio de percurso completo das linhas varia de 71 minutos para as linhas alimentadoras a 192 minutos para o serviço semiurbano. Os ônibus que operam as linhas de eixo gastam em média 117 minutos.

A ausência de uma infraestrutura, somado aos vazios urbanos decorrentes das ocupações irregulares, inviabiliza uma maior capilaridade no atendimento do ônibus. O resultado disto são trajetos em que, ou atendem somente a avenida principal em que é adensada, ou o ônibus é “obrigado” a dar inúmeras voltas, ou fazer um grande trajeto circular conectando estes núcleos adensados. Em função disto, a rede de transporte é ampliada compulsoriamente, já que o primeiro serviço público que chega a estas localidades é o ônibus.

A extensão média das linhas da Área Oeste é de 21 km em ciclo fechado, porém devido ao desenho urbano espraiado, o trajeto de ida e volta das linhas varia de 3,9 km (linha 359) a 91,6 km (linha 050).

A operação destas 89 linhas pela Viação Reunidas e Rápido Araguaia está ancorada em nove terminais de integração: Padre Pelágio, Dergo, Praça A, Parque Oeste, Goiânia Viva, Vera Cruz, Trindade, Goianira e Recanto do Bosque e em dois Pontos de Conexão: Cora Coralina e Primavera, todos as margens da rodovia GO-070.

Quanto a prioridade de tráfego para os ônibus, a Área Oeste não possui corredores preferenciais ou exclusivos para o transporte coletivo. A exceção fica ao Eixo Anhanguera, que corta a cidade de leste a oeste.

Apesar dos fatores externos impactarem na operação do serviço, a Reunidas é a empresa com o menor índice de atraso nas linhas de toda a RMTC, superando inclusive as metas internas - dado a característica das linhas que opera ser majoritariamente alimentadoras, conexão e semiurbanas, que conforme foi mencionado representa quase 60% da oferta.

O índice de cumprimento de viagens está acima da média estabelecida para as demais concessionárias, sendo a Reunidas a mais pontual no sistema - reflexos de um intenso trabalho interno das equipes de Planejamento e Operação. A Reunidas também é a empresa com menor índice de ocorrências por conduta de motorista no Arco Oeste no ano de 2017.

SMA - Sistema Metropolitano Anhanguera

Até setembro de 2014 todas as linhas que atendiam os bairros nos eixos GO-060 e GO-070, e as semiurbanas para Trindade e Goianira, estavam integradas diretamente ao Terminal Padre Pelágio e eram operadas pela Reunidas e Araguaia. A partir do referido mês foi colocado em prática a primeira fase da Extensão do Eixo Anhanguera. As linhas semiurbanas operadas por elas foram substituídas por outras linhas da Metrobus, utilizando ônibus articulados de portas em ambos os lados. A operação das linhas alimentadoras que saiam do Padre Pelágio e atendiam os bairros limítrofes as rodovias foram mantidas inalteradas.

Um ano depois foi implantada a segunda fase da extensão do Eixo, com mudanças na operação das linhas operadas pela Reunidas e Araguaia. Os trajetos alimentadores diretos para o Terminal Padre Pelágio foram seccionados para o Terminal Vera Cruz, e nos Pontos de Conexão criados ao longo da GO-070 citados anteriormente. Após ajustes, algumas linhas retornaram o atendimento direto para o Padre Pelágio nos horários de pico. As mudanças provocaram uma redução significativa tanto de demanda quanto de frota e quilometragem da Reunidas.

O índice de demanda é um importante componente que permite a avaliação do atendimento do transporte urbano, em cada faixa horária e em cada linha. Os números referem-se ao número de validações feitas por cada usuário ao longo do itinerário, ida e volta.

O desempenho da demanda na Área Oeste, assim como em toda a RMTC, permaneceu estável até 2012. No período de 2013 a 2016, a demanda caiu 30%.


Ao consideramos apenas os dados da Viação Reunidas, a demanda reduziu quase 40% num período de 3 anos.


Transporte coletivo funciona basicamente sob dois conceitos: oferta e demanda. Se a demanda retrai, a oferta acompanha. A frota em operação da Viação Reunidas em três anos caiu cerca de 18%, queda acompanhada também na quilometragem percorrida.



Obviamente que uma frota menor em operação resulta numa quilometragem menor, e seria positivo caso a demanda fosse estável, com perspectiva de crescimento. Porém a realidade não é esta, nem para a Reunidas, nem para qualquer empresa de ônibus no país.

Todos estes indicadores apresentados integram a chamada produtividade dos ônibus. De acordo com a Viação Reunidas, o seu IPK - Índice de Passageiros por Quilômetro caiu 6%, se comparado a 2016.

O índice é relativo a produtividade de cada viagem dos ônibus da empresa. Ele resulta da divisão da média mensal de passageiros transportados pela média mensal da quilometragem. Quanto maior esse indicador, maior é a produtividade do serviço de transporte, ou seja, quanto mais passageiros forem transportados com menos quilometragem, melhor.

Ao observar este indicador sob a ótica de quem remunera o serviço do transporte, ou seja, quem paga a tarifa cheia, temos o IPKe - Índice de Passageiros Equivalente por Quilômetro. Naturalmente o índice tende a ser menor ou próximo do IPK. Quanto maior for a diferença, pior é a rentabilidade do sistema.


Ampliando as redes de atendimento do transporte coletivo, porém com número cada vez menor de passageiros, resulta-se em baixo IPK que, por sua vez, força para cima o valor da tarifa.