Goiânia: As razões que afastam o goianiense do transporte público

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Por Rafael Martins

Desde a celebração dos novos contratos em 2008, o transporte coletivo da Grande Goiânia perdeu mais de 26% dos passageiros.

Tarifa alta, violência nos terminais, demora e falta de conforto são apenas algumas das causas que justificam a evasão de mais de 10% dos usuários no primeiro trimestre de 2017, em relação ao ano passado. A recessão econômica, agravada a partir de 2015, e o desemprego são outros fatores que contribuem para a queda da demanda na Grande Goiânia.

Essa queda criou um círculo vicioso: aumento de custos (ônibus mais lentos consomem mais), necessidade de mais investimentos (é preciso mais veículos para cumprir o número de viagens) e passageiros que deixam de usar os coletivos.

Conheça as razões que ajudam a explicar essa evasão de passageiros.

Tarifa cara

Observando que a Rede Metropolitana de Transporte Coletivo - RMTC abrange Goiânia e mais 17 municípios pagando-se uma única tarifa integrada para qualquer destino dentro da Grande Goiânia, a tarifa de R$ 3,70 é uma das mais baratas do país.

Entretanto se considerarmos os deslocamentos dos usuários dentro do município que residem, principalmente das cidades menores que contam com redes próprias, a tarifa torna-se cara. A discussão sobre a sustentabilidade da tarifa única na RMTC perpassa desde a criação de sub-redes com tarifas diferenciadas, até para uma ruptura do modelo metropolitano de transporte.

Porém uma tarifa não módica (tarifa acessível a todos) é prejudicial tanto para o operador, quanto para o usuário. Para as concessionárias do transporte, um valor alto torna o ônibus menos atrativo. Para o usuário, se o gasto mensal com transporte justificar a compra parcelada de um carro ou moto, ele não pensará duas vezes em migrar para o transporte individual.

Além disso, os passageiros queixam-se de que a cada anúncio de reajuste, uma lista de promessas para melhorar o transporte metropolitano surge; porém quando a tarifa aumenta as mesmas caem no esquecimento.

Demora e excesso de integração

A RMTC hoje está estruturada em 21 terminais de integração e de centenas de pontos de conexão eletrônica, num modelo tronco-alimentador. Isto é, há um conjunto de linhas que fazem ligação dos bairros com os terminais de integração, denominadas linhas alimentadoras, e outro conjunto de linhas troncais (eixos), que realizam a distribuição das viagens destes terminais nas áreas mais centrais, nos corredores e nos polos de atração. Além das linhas alimentadoras e troncais, a RMTC possui linhas classificadas em diretas, expressas e metropolitanas.

A tarifa única metropolitana, de certa forma, contribuiu para o espraiamento das cidades da Grande Goiânia. Isto porque pessoas que não tiveram condições de morar em Goiânia e foram para outras cidades, mantiveram vínculos de trabalho, escola ou uso dos serviços e equipamentos públicos e privados com a capital, utilizando um sistema de transporte metropolitano pagando somente uma única passagem.

Devido a esta característica pendular, somado a fato da rede ser tronco-alimentado, os transbordos nos terminais de integração fazem parte da rotina dos usuários.

A demora das linhas alimentadoras, tanto na espera nos bairros quanto nos terminais, são reclamações frequentes dos passageiros. O excesso de transbordo, dependendo do destino, é outro desconforto apontado por quem usa os ônibus todos os dias.

Com relação aos horários, o consórcio das empresas de ônibus recomenda o uso do aplicativo SiM RMTC, disponível gratuitamente nas lojas digitais dos smartphones.  Com o SiM é possível acessar, consultar e possuir informações operacionais relevantes (frequências e horários de viagens, itinerários / trajetos de linhas, pontos de parada, notícias e outras).

Superlotação

A demora dos ônibus, tanto das linhas alimentadoras quanto das linhas de eixo, estão intrinsecamente ligadas à superlotação. O represamento de passageiros tanto nos pontos de parada quanto nos terminais fazem ter uma demanda maior que a oferta programada de ônibus para determinada faixa horária. Uma das razões para este efeito cascata está na falta dos corredores de ônibus.

Mesmo com a queda no número de passageiros, o usuário do transporte não sente uma melhora, pois em sua lógica se há menos pessoas usando os ônibus, os mesmos deviam andar menos cheios, certo? Errado.

Transporte coletivo funciona basicamente sob dois conceitos: oferta e demanda. Se a demanda retrai, a oferta acompanha. Todavia é uníssono no discurso dos passageiros que a superlotação dos ônibus dá-se pela má adequação da oferta de veículos diante da demanda de passageiros.

Pontos de parada

Sob responsabilidade da CMTC, ou seja, o poder público; as paradas de ônibus da região metropolitana em sua maioria estão em péssimo estado de conservação e em alguns casos paradas sem cobertura, com ou sem sinalização. Com déficit nas contas, a questão da manutenção das paradas de ônibus é colocada em segundo plano pela Companhia. 

Entretanto, conforme divulgado pelo Governo de Goiás, até o próximo ano há expectativa de que sejam instalados 500 abrigos nos pontos de ônibus na região metropolitana.

Ônibus velhos e desconfortáveis

Se em 2008, a Grande Goiânia ostentava o título de ter a frota mais nova do país, passado nove anos a realidade é outra. Apesar da tímida renovação da frota entre 2015 e 2016 com 90 ônibus novos, a maioria dos ônibus adquirida em 2008 já está com a vida útil quase vencida, pois o período de depreciação de um ônibus convencional é de no máximo dez anos.

A frota também é considerada desconfortável pelos usuários, pois além do bancos serem de plástico, os mesmos são poucos dentro de um ônibus: cerca de 30 lugares; enquanto num veículo convencional do mesmo tamanho tem até 39 lugares.

Outra queixa é a ausência de climatização da frota. Goiânia e os municípios da Região Metropolitana estão localizados em uma região de clima quente na maior parte do ano, logo a climatização da frota seria um alívio para os usuários. Entretanto é preciso lembrar que quando fala-se em transporte urbano, de forma geral, fala-se de custos. Os custos da climatização da frota, assim como sua renovação, são repassados para a tarifa. Todavia, a climatização da frota não é uma exigência do contrato de concessão da RMTC.

Segurança

É recorrente relatos e notícias sobre a insegurança no transporte metropolitano de Goiânia. São furtos, roubos, arrastões, tentativas de homicídio e até assassinatos nos terminais e ônibus que cortam a região metropolitana da capital. A segurança no transporte foi o item com pior avaliação segundo um estudo apresentado em março deste ano realizado entre o MP, a Universidade Federal de Goiás (UFG), o Instituto Federal de Goiás (IFG) e o Procon Goiânia.

A pressão para a resolução do problema, de imediato, cai sobre as empresas de ônibus para criarem mecanismos para reforçar a segurança dos passageiros. Dentro do arcabouço que rege o contrato de concessão, as empresas já cumprem o que é estabelecido com relação a segurança, entretanto por ser um problema de ordem pública, a resolução ultrapassa a competência das concessionárias do transporte.

Dificuldade do Sitpass

Mesmo com as campanhas das empresas de ônibus para que usuários adquiram o Cartão Fácil, o usuário esporádico do serviço é resistente. Além disso, pagar pelo transporte coletivo é motivo de dor de cabeça por parte dos passageiros.

Não há uma linha de ônibus da Grande Goiânia que não tenha essa cena: encontrar passageiros amontoados na entrada do ônibus a espera de alguém vender uma passagem; seja por motivo da falta do bilhete ou cartão, ou o cartão estar descarregado. Se este usuário não encontra quem possa vender a passagem, ele tem de ir obrigatoriamente para um terminal de integração e de lá pagar para ter acesso ao transporte.

Outra queixa são a falta de pontos de venda e recarga dos cartões, porém segundo o consórcio das empresas de ônibus, o Sitpass tem atualmente 2.400 pontos de vendas no comércio varejista, além da venda direta em agência própria situada no edifício Parthenon Center, na região central de Goiânia, nos terminais de ônibus da RMTC (32 bilheterias e 54 pontos de atendimento) e nas plataformas e terminais do Eixo Anhanguera (37 bilheterias com 37 pontos de atendimento). Integram a rede, ainda, quiosques de vendas e máquinas de autoatendimento. Para atendimento aos empregadores que compram Vale-Transporte são adotadas vendas via Internet.

Popularização de aplicativos de transporte

Em meio ao caos do transporte público, o goianiense que utiliza o transporte esporadicamente não pensa duas vezes antes de embarcar no ônibus. Os aplicativos de transporte individual como Uber, se popularizaram e configuram como uma alternativa para os insatisfeitos com o transporte coletivo.

As vantagens alegadas por estes usuários destas plataformas estão o tratamento diferenciado, conforto, preço (e suas promoções) e rapidez nos deslocamentos.

Outra alternativa são as bicicletas e bikes compartilhadas. 

Existem quatro tipos de pagamento para as bikes compartilhadas: diário, com valor de R$ 4; semanal, com preço de R$ 8; semanal, a um custo de R$ 35; e anual, pagando R$ 70. Com esses valores, a pessoa pode usar quantas bicicletas quiser por dia, respeitando o período de permanência de uma hora com cada uma. 

Se esse tempo for extrapolado, automaticamente é cobrado uma multa no cartão de crédito da pessoa. Para usar serviço, é preciso baixar um aplicativo no smartphone e ter um cartão de crédito. Ao todo, são 15 estações espalhadas pela cidade com 10 bicicletas cada.