DF: Limpeza de frota de ônibus demanda 6,5 milhões de litros de água por dia. Empresas buscam alternativas ecossustentáveis

Há 200 dias, teve início a medida mais rígida de enfrentamento à crise hídrica no Distrito Federal. Ainda sem previsão de término, o racionamento de água corta o recurso das torneiras dos brasilienses a cada seis dias. 

No setor de transportes, no entanto, o líquido usado para a lavagem de ônibus costuma vir de poços artesianos, por isso, não gera custos às empresas, que também não são afetadas pela interrupção no abastecimento. Segundo a Sondagem CNT de Gestão Hídrica, da Confederação Nacional do Transporte, em média, são utilizados 364 litros de água para lavar um coletivo. 

Os veículos precisam ser higienizados todos os dias, por isso, apenas a frota do DF, demanda, por dia, 6.506.864 litros de água. A cada mês, o volume gasto na lavagem seria suficiente para abastecer Ceilândia por quase três dias. Na segunda da série de reportagens O caminho sustentável da água, o Correio mostra que é possível encontrar alternativas para reduzir o consumo.

Desde 2011, quatro projetos de lei foram criados com o objetivo de regulamentar o uso e o reúso de água pelas empresas de ônibus. Até o momento, no entanto, nenhum deles foi aprovado pela Câmara Legislativa do DF. 

O próprio setor de transportes cobra mudanças, tendo em vista, principalmente, o cenário de crise hídrica. Segundo a Secretaria de Mobilidade, durante as licitações de contratação, já é previsto que as empresas vencedoras adotem medidas e usem equipamentos ou técnicas que reduzam o consumo de água. 

A Transportes Integrados do DF (Transit), associação que representa as empresas de transporte público locais, afirma que todos os grupos estão em processo de adequação a sistemas que garantam economia do recurso.

O Grupo Piracicabana é um dos exemplos. Com uma frota de 526 ônibus, chegou ao DF em 2013, e, em 2014, investiu R$ 40 mil em um sistema que capta a água utilizada na lavagem externa dos veículos e possibilita a reutilização. Desde então, os gastos de cada uma das três garagens caiu de 80 mil litros por dia para 14 mil. “Nosso grupo veio de São Paulo, e lá, devido à crise de abastecimento que se instaurou nos últimos anos, as empresas mostram uma preocupação com o meio ambiente que ainda não vemos aqui”, explica Antônio Cacheado, gerente de manutenção do grupo.



A lavagem ocorre em duas etapas. Na externa, os veículos passam por rolos com escovas automáticas. A água utilizada escorre por ralos e é levada a poços que retiram óleo, graxa e papéis. Daí, o recurso passa por filtros e, por fim, chega a reservatórios de 10 mil litros, onde, diariamente, são inseridas bactérias que absorvem gordura e sabão. Os microrganismos são fornecidos pela empresa que oferece o serviço de reúso. 

“Pagamos cerca de R$ 9 mil por mês, mas é o único serviço que precisa de manutenção”, explica. Na empresa, são gasto 400 litros de água na lavagem de cada ônibus, Cacheado destaca que, agora, o consumo continua o mesmo, mas que, em vez de água potável, é utilizado um recurso que antes seria jogado fora.

Após a primeira etapa, os veículos recebem uma lavagem interna, que hoje é feita a seco. “Antes, limpávamos o veículo com jatos de água. O gasto diário chegava a 20 mil litros. Hoje, é feito com borrifadores e panos e os gastos caíram em 90%”, garante. E quem trabalha na limpeza aprova a mudança. “Borrifo a água, passo a bucha e, depois, o pano. Limpa do mesmo jeito e ainda ajuda o meio ambiente”, conta Maria Conceição Sousa, funcionária do grupo.

Conscientização

Além do reúso, especialistas indicam a utilização de água da chuva para lavagem de veículos. Doutor em gestão de recursos hídricos, o professor Demetrios Christofidis, da Universidade de Brasília (UnB), afirma que é necessária a conscientização de toda a equipe de trabalho. 

“Empresas de ônibus têm garagens grandes e áreas cobertas ou impermeabilizadas, que podem ser utilizadas para captar água da chuva. Porém, é importante educar e sensibilizar toda a equipe, pois não estamos falando apenas de gastos econômicos, mas, sim, de um recurso que vai acabar”, analisa.

Por ora, não há regulação específica por meio da Adasa sobre reúso ou aproveitamento de água da chuva. A agência, em parceria com a UnB, realiza um estudo sobre o assunto, tanto no âmbito residencial quanto para o setor de transportes. A expectativa é que o material seja divulgado até março de 2018.

Exemplo

Entre maio de 2016 e 2017, a Companhia do Metropolitano do Distrito Federal (Metrô-DF) reduziu em 37% os gastos com contas de água. No fim do último ano, o Plano de Redução de Consumo da companhia elaborou ações de incentivo ao uso racional da água, evitando desperdícios, seja por problemas na rede hidráulica ou por falta de conscientização dos empregados e dos usuários do serviço. 

No período, as contas caíram de R$ 149.540,44 para R$ 95.389,21. A lavagem das estações e dos vagões ocorrem em três etapas: uma a seco, realizada diariamente; mensal, com enceramento; e bimestral, com utilização de jatos de água. Atualmente, está em processo a elaboração de um estudo para captação de água pluvial a ser utilizada na higienização e limpeza do centro administrativo.

O professor Daniel Richard, da UnB, faz parte da equipe que está elaborando o estudo de reúso e águas pluviais junto à Adasa e conta que sempre é possível diminuir o consumo de maneira eficiente. “Quando falamos em conservação, temos que dar um passo para trás e tentar compreender se é realmente necessário utilizar água potável quando o objetivo final não for o consumo, como é o caso de setores como os de edificações e de transportes”, recomenda.

Fonte: Correio Braziliense