Goiânia: Fim da tarifa única metropolitana representa sustentabilidade da RMTC

Terminal Garavelo
Por Rafael Martins

O que era solução quando criada a RMTC, tornou-se um problema. As discussões para a extinção da tarifa única metropolitana não são novas; porém a mudança implicará numa série de alterações, inclusive no sistema de bilhetagem eletrônica. Apesar de tecnicamente positiva, existe um ônus político.

Quando a RMTC foi criada, a ideia da tarifa única era vista como solução pelos empresários e técnicos para o movimento pendular do interior à capital. Na época, cerca de 70% das viagens da rede eram dentro de Goiânia e só 30% eram de moradores das cidades vizinhas até a capital. 

O modelo de tarifa única opera com um sistema de compensação interna no qual, como regra, a tarifa dos usuários das viagens mais curtas cobre parte dos custos dos que residem em áreas mais distantes.

Entretanto, a partir de 2005 a lógica se inverteu. Isto porque houve uma explosão demográfica nas demais cidades da região metropolitana, devido ao custo de vida mais baixo que o da capital. Este fator contribuiu para a expansão desordenada das cidades, refletindo no custo da operação do serviço.

Isso ocorreu, sobretudo, nos eixos de transporte que ligam o centro das cidades do interior à capital. Se a conurbação estava restrita apenas com Aparecida e em escala menor Senador Canedo, o fenômeno expandiu-se para outras cidades.

Por exemplo, o número de loteamentos em Goianira cresceu ao longo da GO-070, rumo à Goiânia, e o mesmo ocorreu com Trindade, na GO-060 em direção ao segundo núcleo urbano daquele município conhecido como Trindade II. Ou seja, além do tecido urbano se tornar único, são mais pessoas utilizando as mesmas linhas do transporte coletivo que de forma compulsória tiveram de ser ampliadas em regiões urbanisticamente espraiadas.

A tarifa apesar de ser única para toda a RMTC, ela está cada vez mais cara; principalmente para o goianiense que precisa de deslocar na capital. Para as cidades menores da região metropolitana que tem suas próprias redes de transporte, como Trindade, Goianira, Nerópolis e Senador Canedo; a tarifa única desestimula os deslocamentos internos por ônibus e consequentemente o desenvolvimento destas cidades. É atrativo ir e consumir bens e serviços na capital com a atual tarifa totalmente integrada.

Eis o maior desafio para a RMTC: como atrair de volta o passageiro lindeiro, ou seja, aquele que utiliza as viagens curtas; sem penalizar o usuário que reside em locais distantes e vem para Goiânia? Para contornar este problema, tanto as concessionárias quanto a CMTC chegaram a um consenso de que é preciso praticar tarifas diferenciadas. A proposta de adotar tarifas proporcionais à extensão da linha ainda está em estudo.

O fim da tarifa única representaria um fôlego para a sobrevivência da RMTC, bem como um motor de desenvolvimento dos municípios da região metropolitana. A criação de novos serviços, com seus respectivos valores tarifários, fortalecerá o desenvolvimento interno destas cidades, ao passo que ao se desenvolverem e surgirem novas centralidades, as cidades diminuem a dependência com Goiânia, reduzindo a pendularidade dentro da RMTC.

Entretanto não é só o fim da tarifa única que resolverá o problema. Assim como em outras metrópoles, em Goiânia existe uma crescente tendência na descentralização da cidade e seus serviços, na medida em que sua população aumenta. O crescimento ordenado preconizado nos Planos Diretores não conseguiu acompanhar atualmente o crescimento do tecido urbano da região metropolitana, uma vez que a velocidade de ocupação de territórios é incompatível com o tempo de planejamento do uso do solo.

A cidade cresce, a população aumenta, e essa população cria uma alta demanda por infraestrutura básica e principalmente por transporte. Assim a rede de transporte, de uma forma até compulsória, acompanha o crescimento da cidade, já que o primeiro equipamento público que chega é o ônibus.

Se não tiver densidade na região, não tem transporte, e se há o transporte o seu custo é caro. É preciso refletir: uma rede de transporte tão extensa é impactada pelo crescimento populacional das cidades da região metropolitana e o crescimento espacial desordenado.

Este espraiamento urbano impacta diretamente na política tarifária, ainda mais nos moldes vigentes da RMTC, em que se cria os benefícios e não cria a contrapartida para arcar com estes custos extratarifários. Com isso, o entendimento das concessionárias é que o setor de transporte coletivo não pode mais arcar com esse custo social, e que ainda levaria à derrocada do sistema.

Além disto é preciso modernizar o sistema de bilhetagem eletrônica. A tecnologia empregada ainda é a mesma de quando implantada em 1998, e não suporta novas evoluções que a mudança de tarifação exige.

A RMTC precisa se reinventar, se modernizar para avançar. A partir de agora é preciso cautela e discussão com todos os envolvidos no que esta sendo proposto, sob pena de sua efetiva implantação sofrer fortes restrições ou até mesmo ser inviabilizada devido ao ônus político.