Goiânia: Tarifa única metropolitana em xeque

Rápido Araguaia - 50446
Por Rafael Martins

O fim da tarifa única metropolitana volta a discussão em meio aos debates sobre o reajuste tarifário na Grande Goiânia. De acordo com a coluna O Giro, do jornal O Popular, as empresas de ônibus tentam propor na negociação do reajuste da passagem para R$ 4,00 o fim do modelo e adotar tarifas proporcionais à extensão da linha.

A proposta não é nova e já está em pauta a bastante tempo. Apesar de tecnicamente positiva, existe um ônus político.

Hoje com a predominância do modelo de tarifa única, a RMTC opera com um sistema de compensação interna no qual, como regra, a tarifa dos usuários das viagens mais curtas cobre parte dos custos dos que residem em áreas mais distantes. Com o crescimento dos custos operacionais e com a queda de demanda, os questionamentos sobre os problemas de financiamento da prestação dos serviços de transporte coletivo urbano ganharam espaço.

Neste ambiente, muitos questionam a conveniência e a justiça social da permanência dos modelos de tarifa única, alegando o crescimento exagerado do custo médio das viagens, ou seja, apesar de a tarifa ser única, ela é cada vez mais cara. A ampliação da possibilidade de implantação de sistemas tarifariamente integrados, a partir da disseminação dos sistemas de bilhetagem eletrônica, amplia a discussão.

O crescimento e a expansão desordenada da região metropolitana de Goiânia, contribuem para o encarecimento do custo da operação dos ônibus, porém como o uso e ocupação do solo irregulares afetam a dinâmica do transporte? 

Os reflexos caem, como já foi dito, sobretudo nos custos operacionais. Quanto mais longe o transporte tem que ir, mais baixo é seu IPK, e por consequência, mais caro é o custo do serviço. Vale lembrar que o IPK é um componente importante no cálculo da tarifa metropolitana.

Eis o maior desafio para a RMTC: como atrair de volta o passageiro lindeiro, ou seja, aquele que utiliza as viagens curtas; sem penalizar o usuário que reside em locais distantes?

O fim da tarifa única representaria um fôlego para a sobrevivência da RMTC, bem como um motor de desenvolvimento dos municípios da região metropolitana. Hoje a tarifa de R$ 3,70 é cara para quem deseja se descolar dentro de qualquer cidade, porém é barata quando esta liga os municípios para Goiânia. 

A partir do momento em que a tarifa única é extinta, pode-se criar linhas internas nestes municípios com tarifa mais baratas, linhas alimentadoras com valores mais acessíveis; em contrapartida as linhas semiurbanas e as linhas troncais teriam um valor mais elevado.

A criação de novos serviços, com seus respectivos valores tarifários, fortalece o desenvolvimento interno dos municípios da região metropolitana, ao passo que ao se desenvolverem e surgirem novas centralidades, as cidades diminuem a dependência com Goiânia, reduzindo a pendularidade dentro da RMTC.

Entretanto não é só o fim da tarifa única que resolverá o problema. Assim como em outras metrópoles, em Goiânia existe uma crescente tendência na descentralização da cidade e seus serviços, na medida em que sua população aumenta. O crescimento ordenado preconizado nos Planos Diretores não conseguiu acompanhar atualmente o crescimento do tecido urbano da região metropolitana, uma vez que a velocidade de ocupação de territórios é incompatível com o tempo de planejamento do uso do solo.

O espraiamento urbano altera toda a dinâmica e planejamento de transporte e dá-se de várias formas: construção de residenciais de habitações populares, loteamento de residenciais horizontais a preços mais baixos nos limites da cidade e em casos mais extremos, invasões. Áreas nas extremidades da capital antes rurais, são convertidas em urbanas, caracterizada pela ausência de infraestrutura e baixas densidades.

A cidade cresce, a população aumenta, e essa população cria uma alta demanda por infraestrutura básica e principalmente por transporte. Assim a rede de transporte, de uma forma até compulsória, acompanha o crescimento da cidade, já que o primeiro equipamento público que chega é o ônibus. 

Se não tiver densidade na região, não tem transporte, e se há o transporte o seu custo é caro. É preciso refletir: uma rede de transporte tão extensa é impactada pelo crescimento populacional das cidades da região metropolitana e o crescimento espacial desordenado. Este espraiamento urbano impacta diretamente na política tarifária, ainda mais nos moldes vigentes da RMTC, em que se cria os benefícios e não cria a contrapartida para arcar com estes custos extratarifários.

Goiânia desde sua concepção sempre sofreu com as pressões do ramo imobiliário e expandir a cidade de forma desordenada foi e continua sendo um erro. Um erro que tem gerado problemas ao longo dos anos, sendo o mais visível o da mobilidade urbana. 

Enquanto não houver uma integração de fato entre os planejamentos urbano e de transporte, e pulso firme na execução do que foi traçado nos planos, os problemas de transporte vão sempre se repetir, num círculo vicioso, afinal os deslocamentos cotidianos das pessoas entre origens e destinos são, portanto diretamente influenciados pelas decisões do planejamento urbano, pois a distribuição do uso do solo afeta a demanda de viagens e os investimento no sistema de transportes afetam as decisões de uso do solo.