Goiânia: Recomendação do MP-GO pode ser inviável tecnicamente

Avenida Tocantins
A principal recomendação do Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) à Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) para melhorias do sistema de transporte coletivo da região metropolitana, em que seriam colocados cinco ônibus nas linhas mais problemáticas nos horários de pico, pode não representar ganho para o usuário ou mesmo ser inviável. A alegação é de especialistas ouvidos pelo POPULAR, já que representaria um incremento de 160 veículos nestes horários, quantidade maior do que a frota reserva das operadoras.

O diretor executivo do consórcio das empresas concessionárias do sistema (Redemob), Leomar Avelino, explica que 160 ônibus é, por exemplo, a quantidade total da frota da empresa Viação Reunidas. “É inviável pensar que sobra, nas demais empresas, essa quantidade de veículos, como se tivesse uma Reunidas dentro das demais empresas sem uso”, explica. Avelino diz que as empresas estão sim dispostas a realizar melhorias para o sistema no que for possível e, por isso, aguarda as recomendações técnicas da CMTC sobre o incremento nos horários de pico.

Especialista em trânsito e membro da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Antenor Pinheiro considera que o aumento dos ônibus representa no mínimo 3.520 metros de extensão a mais no fluxo do trânsito já congestionado. “Logo, teremos viagens mais lentas e com ônibus a mais. Qualquer técnico de mediana capacidade sabe que o problema mais grave na atualidade não é o número de ônibus em circulação, mas o tempo de viagem dos ônibus.” Para ele, ainda é estranho que o documento tenha partido de levantamento da CMTC sobre linhas problemáticas e a própria companhia não resolveu a situação anteriormente e com estudos técnicos.

A arquiteta e urbanista Erika Kneib, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), explica que sempre defende o incremento no número de viagens nos horários de pico como melhoria na qualidade. “Porém, para que isso seja possível e sentido pelo usuário, é necessário viabilizar a fluidez do transporte coletivo, evitando que os ônibus fiquem presos nos congestionamentos junto com os carros. Isso viabilizaria não só maior número de viagens, como maior pontualidade, regularidade e confiabilidade ao sistema”.

Já o professor de Engenharia de Trânsito do Instituto Federal de Goiás (IFG), Marcos Rothen, reforça que se trata de uma medida emergencial proposta para “minimizar o problema causado pela omissão da CMTC”. Ele acredita que deve ser planejada uma metodologia para adequação da oferta a demanda, já que acha difícil que as empresas tenham disponibilidade de veículos para tal.

Técnicos da CMTC ouvidos pelo POPULAR acreditam que o aumento de cinco veículos podem sim diminuir a superlotação, especialmente nas linhas alimentadoras, que são aquelas que operam até os eixos e terminais. No entanto, nas linhas troncos, que são as principais, o maior número de veículos pode fazer com que mais carros fiquem retidos no trânsito. Na prática, pode ser que os usuários deixam de esperar nos pontos de ônibus, mas os veículos em que estão fiquem mais tempo parados nas vias.

Durante a apresentação da recomendação à imprensa, a promotora Leila Maria de Oliveira, autora do documento, salientou que a quantidade de cinco ônibus é aleatória e serve em um primeiro momento até para que a CMTC verifique se ela é necessária ou há outra solução. A princípio, seriam usados os ônibus que as empresas possuem, já que a recomendação prevê novos veículos a partir de 90 dias.

Obrigações

Os especialistas ouvidos pelo POPULAR reiteraram, conforme disse a promotora, que o documento apresentado não traz novidades do que já era previsto em contrato. Isso é especialmente para a emissão de dados do sistema pela CMTC e que a companhia faça seu trabalho de fiscalização. “Essa é uma obrigação da CMTC e qualquer justificativa da CMTC para não fazer é um descalabro”, diz Rothen. 

No entanto, o professor do IFG reitera que a promotora também deveria incluir, no pedido de informações, a quantidade efetiva de quilômetros percorridos. Já Erika Kneib reitera que, para a CMTC operar, é necessária reestruturação do órgão.

Fonte: O Popular