Goiânia: Mesmo sem perspectivas para tocar obra do VLT, Estado manterá cargos ligados à sua implantação

Mesmo sem perspectivas para a obra do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) de Goiânia ser levada adiante, o governo estadual manterá o Grupo Executivo de Implantação do programa e o contrato com o consórcio Mobilidade Anhanguera, do qual a Odebrecht faz parte. Vinculado à Secretaria de Cidades (Secima), o grupo tem quatro integrantes, segundo a direção, com custo mensal de salários de R$ 36 mil.

O Giro mostrou domingo que o projeto morreu por três fatores: efeito da Operação Lava Jato sobre a Odebrecht, falta de recursos - a obra tem custo atualizado de R$ 1,8 bilhão - e a crise da empresas de ônibus de Goiânia, que também participam do consórcio.

Diretor-geral do grupo executivo, Carlos Maranhão afirma que uma saída para o projeto seria a venda da Odebrecht Transport - como ocorreu com a Odebrecht Ambiental - para outro grupo que assumiria o contrato. Questionada, a assessoria da Concessionária Mobilidade Anhanguera diz que a possibilidade de venda “não faz sentido” - já que a Odebrecht Mobilidade é formada pela Transport e a Mitsui - e afirma desconhecer a informação de que há decisão política de enterrar o projeto.

Maranhão diz que não haverá rescisão do contrato e que a estrutura do grupo, formado por ele, um secretário executivo e dois gerentes, será mantida para “preservar o acervo técnico e a parte contratual”. Em balanço das contas publicado no ano passado, o consórcio ressalta que o “contrato prevê cláusulas de proteção a companhia em casos de rescisão, como de multa rescisória e o reembolso das despesas pré-operacionais incorridas no projeto”. 

O diretor-geral diz não saber quanto caberia ao Estado pagar em caso de rescisão e que isso não foi cogitado porque desvaloriza o projeto. “Essa é a última opção. Vamos aguardar condições mais favoráveis.” As despesas pré-operacionais incluem licenças, projetos e consultoria.

Promessa da campanha de 2010 do governador Marconi Perillo (PSDB), o VLT no lugar dos ônibus no Eixo Anhanguera teve licitação encerrada em dezembro de 2013 com orçamento de R$ 1,3 bilhão. A construção deveria durar dois anos, a partir da ordem de serviço. Em setembro de 2014, o governo baixou decreto que declara 180 imóveis como de utilidade pública, para efeito de desapropriação. O custo avaliado à época era de cerca de R$ 100 milhões.

De acordo com Maranhão, houve desapropriação de menos de dez apartamentos de um prédio ao lado do terminal da Praça da Bíblia, que custaram cerca de R$ 1,5 milhão. O processo foi paralisado pela falta de perspectivas de financiamento para a obra.

“A ordem sempre foi não começar nada sem dinheiro. Hoje a conjuntura é muito desfavorável. Digamos que o projeto está hibernando”, diz Maranhão. Ele aponta, além das dificuldades da Odebrecht, a falta de recursos do governo estadual e o fechamento das portas no governo federal para obtenção de empréstimos e liberação de verba. Mas afirma que o projeto é muito viável, levando em conta a média de 200 mil passageiros por dia, e que um grupo chinês já sinalizou interesse no contrato.

O grupo executivo foi criado em dezembro de 2012 e tinha, além da direção, 11 cargos para elaboração do projeto. Segundo o diretor-geral, os funcionários já foram redistribuídos no governo e restaram apenas as duas gerências e a secretaria executiva.

Obra é citada para repasses de caixa 2

O VLT de Goiânia foi citado por delatores da Odebrecht como fonte de R$ 466 mil repassados para caixa 2 da campanha do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda em 2014. Ao total, Arruda teria recebido R$ 966 mil. Em documento apreendido na Operação Lava Jato, há uma tabela com valores de repasses. Aparece na planilha VLT Goiânia destinada a Parreira, codinome do ex-governador.

Em delação, o ex-diretor de Contrato da Odebrecht Ricardo Ferraz afirmou que Sergio de Andrade do Vale foi indicado por Arruda como recebedor dos recursos e o repasse de R$ 466 mil ocorreu no dia 8 de setembro de 2014. Ricardo diz que a identificação do VLT é a alocação do recurso e que não significa qualquer influência de Arruda no contrato. “Provavelmente era onde tinha algum saldo e os operadores do sistema Drousys fazem isso, identificar na contabilidade de onde saiu o dinheiro”.

O diretor-geral do Grupo Executivo de Implantação do VLT, Carlos Maranhão, diz que o governo estadual não repassou nenhum recurso para o consórcio responsável pelas obras, já que elas ainda não foram iniciadas. “Imagino que podem ter feito confusão com o VLT de Brasília, que chegou a ser estudado e teve projeto na época da Copa. O VLT de Goiânia nunca teve dinheiro, não tinha de onde tirar. E se tivesse, não haveria sentido em repassar para Arruda. Isso só o delator pode explicar”, diz.

Outros R$ 500 mil destinados a Arruda teriam saído do centro administrativo de Brasília, ainda segundo delatores. O ex-diretor superintendente da construtora Odebrecht João Pacífico também confirmou os repasses ao ex-governador. A assessoria de Arruda não comentou as informações.

O VLT também foi citado pelo ex-diretor-superintendente Nordeste e Centro-Oeste da construtora Norberto Odebrecht como um dos interesses do grupo ao doar recursos para o governador Marconi Perillo (PSDB). “O pagamento de caixa 2 ocorria em função de interesses, por exemplo, a gente tinha lá uma obra que conquistamos, foi assinado o contrato, mas até hoje não foi iniciada por falta de financiamento, que é uma PPP do VLT em Goiânia.”

Fonte: O Popular