Goiânia: Má qualidade e valorização do particular reforçam evasão do transporte

Um sistema que é mal gerado, tem baixa qualidade, não recebe qualquer prioridade do poder público e ainda é mal visto pela sociedade. Essa é a realidade do transporte coletivo em Goiânia. O professor do curso de Engenharia de Transportes da Universidade Federal de Goiás (UFG), Willer Luciano Carvalho, acredita que a má avaliação dos ônibus metropolitanos é apenas uma das causas da evasão dos usuários. Ela é somada à questão cultural de valorização dos veículos particulares e de como isso influencia as políticas públicas, em que há mais espaços para os carros do que para ônibus e mesmo pedestres.

Carvalho lembra ainda que entre 2008 e 2013 houve grande avanço econômico para a aquisição de bens automóveis, com a desoneração de impostos e facilitação de crédito para o consumidor e fábricas. “Se a economia cresce muito, há interesse nos carros e motos e isso prejudica o transporte coletivo. Mas se a economia fica ruim, com alta taxa de desemprego, quem utiliza o transporte também sai do sistema”, argumenta. Em pesquisa recente feita pelo professor, também foi apontada pelos usuários como principal problema do transporte coletivo a segurança pública, que também independe da operação em si.

O economista Adriano Paranaíba cita ainda que o sistema atual é mal integrado com o Eixo Anhanguera, principal linha da capital, já que é necessário ter um cartão para as linhas convencionais e outro, para quem quer pagar meia passagem, para o Eixo. Outras causas são a falta de conforto nos ônibus, terminais e pontos, aliado a novas opções de transporte, como o Uber e as bicicletas. “Praticamente tudo contribui para esse cenário e não tem como prever isso.”

Paranaíba se refere também ao poder público que não executa a Lei de Mobilidade, que dá prioridade aos transportes coletivos ante os particulares, como a construção de vias preferenciais e exclusivas e aponta um problema nas licitações. Segundo ele, quando se faz os editais, os estudos apontam um aumento na demanda ao passar dos anos, mas não considera variáveis importantes, como os investimentos no sistema viário. “Não se pode punir o concessionário por obras que não foram feitas, pela segurança pública e os congestionamentos.”

Superlotação

Apesar da queda no número de passageiros nos últimos oito anos, os usuários, especialmente em horário de pico, não convivem com mais espaços nos coletivos, como seria de se esperar pelo senso comum. O professor da UFG, Willer Carvalho, afirma que deveria ser feita uma pesquisa específica sobre o assunto, mas que, a princípio, isso ocorre por uma queda na oferta de viagens, dimensionando com a queda da demanda. “O problema é se isso for reduzido além do que seria necessário.” O professor do IFG, Marcos Rothen, explica com a diminuição do número de ônibus e operação feita de forma não profissional.

O diretor executivo da RedeMob, Leomar Avelino, explica que o que ocorre é perda de produtividade com o passar dos anos, causada pelo espraiamento urbano e a perda de velocidade operacional. “O planejamento é realizado com fundamento nos resultados de pesquisas e estudos técnicos. Porém, a execução deste planejamento sofre consideráveis influências negativas do trânsito e de outras variáveis relacionadas à infraestrutura viária – o que prejudica sensivelmente a lotação dos ônibus.”

Assim, segundo Avelino, os horários planejados, em muitos momentos, não são cumpridos, “gerando comboio de veículos e acúmulo de pessoas nos pontos de parada e nos terminais, lotação não prevista para determinada viagem”. O economista Adriano Paranaíba reforça que a superlotação não ocorre nos entrepicos, mas permanece nos picos porque se trata do movimento pendular, que ocorre sempre e para quem é refém dos ônibus.

Nova consciência pode reverter quadro

Para o designer Marcos Túlio Batista da Silva, nem mesmo a melhora no sistema de transporte o faria voltar aos ônibus. “São muito desagradáveis e considero que não ter que depender deles é um grande avanço”, argumenta. Para especialistas ouvidos pelo POPULAR, apenas grandes investimentos e a mudança na consciência da população poderia reverter o quadro atual.

O professor de Engenharia de Transportes do Instituto Federal de Goiás (IFG), Marcos Rothen, aposta que investir em uma nova frota, mais confortável, pode ser um bom começo. Ele aponta que se deve melhorar o serviço com a utilização de ônibus verdadeiros e “não os caminhões com banco que hoje são utilizados aqui”.

Além disso, é preciso garantir maior velocidade para os coletivos com a implantação do corredor BRT Norte-Sul, profissionalizar a operação do transporte coletivo de forma a garantir um melhor aproveitamento dos veículos e melhor atendimento dos usuários. “O descaso com o passageiro aqui é tão grande que o passageiro não sabe se o ônibus está indo ou vindo, por onde ele passa e o preço da tarifa, ou seja, não tem nenhuma informação antes de entrar no veículo”, avalia o especialista.

O diretor executivo do consórcio das concessionárias (RedeMob), Leomar Avelino, conta que “as pesquisas apontam que os clientes querem segurança, viagens mais rápidas, menos tempo de espera, pontualidade, menor lotação, pontos de ônibus dignos, informações sobre o serviço, terminais e estações que propiciem maior conforto”. Em pontos específicos, ele afirma que se deve ter melhor distribuição da demanda durante as viagens, organização e reforma dos terminais do Eixo Anhanguera com a retirada dos camelôs, aumento da segurança, divulgação dos aplicativos da RMTC, além de abrigos com informações do serviço em todos os pontos.

Melhorias

No entanto, para ele, nesses oito anos de operação desde 2008, mesmo com a queda na demanda, a operação teve melhorias, como a renovação da frota, sendo a primeira no País 100% acessível, implantação da central de controle, reforma de 13 terminais e construção de outros 3, introdução de câmeras e seguranças, os organizadores de fila e outros. Além disso, ele cita o início das obras da rede de corredores preferenciais e exclusivos de ônibus em Goiânia, como um avanço futuro. Para Leomar, isso mostra a dificuldade em reverter a situação.

Fonte: O Popular