Goiânia: Especialistas apontam saídas para melhorias no transporte coletivo mesmo sem dinheiro

O reajuste da tarifa de ônibus da região metropolitana de Goiânia para R$ 4, previsto para ser aprovado ainda nesta semana, deve ocorrer sem que o usuário perceba melhorias no atendimento. Embora o discurso da Prefeitura da capital seja o de atrelar o aumento a contrapartidas das empresas, as conversas não avançaram. A crise financeira é a desculpa em comum. Mas especialistas apontam que o usuário poderia ter um serviço de qualidade com mudanças que dependem sobretudo da vontade dos agentes do sistema, sem uso de dinheiro.

Especialista em trânsito e membro da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Antenor Pinheiro acredita que, ao exigir melhorias como condição para concordar com o reajuste da tarifa, a Prefeitura está cobrando dela mesma. “Meio esquizofrênico esse jeito de tratar a questão.” Isso porque o Paço detém a maioria da Câmara Deliberativa de Transportes Coletivos (CDTC), que é o colegiado responsável pelas políticas públicas do setor, e ainda indica o presidente e o diretor técnico da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC).

Para Pinheiro, “a Prefeitura é a responsável objetiva pelo controle dos encaminhamentos administrativos e ações operacionais que devem ocorrer para que os serviços sejam prestados com qualidade” e, logo, se isso não ocorre, é ela a responsável, não havendo lógica colocar condições para o reajuste se isso não é feito cotidianamente. O especialista reforça ainda que cumprir a legislação vigente e as cláusulas básicas do contrato já traria melhorias significativas para os usuários do transporte coletivo. Algumas medidas poderiam ser atuar no trânsito para dar fluidez e fiscalizar a operação para garantir as viagens.

Professor do Instituto Federal de Goiás (IFG) e especialista em transportes, Marcos Rothen lembra que as empresas têm obrigações a cumprir no contrato e não podem, simplesmente, alegar crise financeira. A primeira medida para a melhoria do serviço de transporte sem que se precisasse um investimento, para ele, é justamente cobrar das empresas suas obrigações. “Se as empresas estão com dificuldades o poder público pode intervir nas administrações garantindo a continuidade do serviço, pode fazer auditorias e até cassar as concessões. Não se pode achar que as empresas só têm benefícios, mas elas acima de tudo têm deveres.”

Pinheiro acredita, sobretudo, que existe um problema na configuração atual da Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC), especialmente no uso político da CMTC e CDTC. Para se ter uma ideia, é a tarifa paga pelos usuários que sustenta a CMTC, no patamar de 1% do que é arrecadado mensalmente. A Prefeitura de Goiânia arca com as contas de água, luz e a gasolina dos veículos.

Assim, o órgão fiscalizador não tem verba para realizar pesquisas ou contratar novos fiscais, que hoje são menos de 20, uma quantidade menor até mesmo que a de terminais do sistema.

Novo planejamento é solução de baixo custo

O professor Marcos Rothen, especialista em transportes do Instituto Federal de Goiás (IFG), diz que os usuários do transporte coletivo da região metropolitana de Goiânia são prejudicados pela falta de planejamento operacional adequado e, assim, deveria ser formado um grupo de pesquisadores para definir a demanda do sistema atualmente. O grupo faria uma reprogramação operacional, com a quantificação da demanda e o quadro de horários para linhas, em que este seria divulgado para que os usuários se organizassem.

Essas medidas trazem retornos imediatos, não em todas as linhas, mas à medida que se organiza uma linha alguns resultados já aparecem. E a medida que isso vira rotina as linhas vão atendendo as demandas com maior qualidade”, comentou Rothen.

Professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), a arquiteta e urbanista Érika Kneib diz que enquanto a questão financeira não é resolvida “há outras medidas de melhoria, que possuem um custo muito pequeno se comparado ao sistema, que podem ser aplicadas”.

O exemplo é o novo planejamento de toda a rede, já que o modelo atual é de uma década atrás e as cidades mudaram bastante neste período. A teoria mais em voga, atualmente, é o fim da tarifa única, criando anéis tarifários em que o usuário pagaria por distância percorrida ou diferentes tarifas por cidade, mas ambas seriam impopulares ao prejudicar moradores das periferias.

“É natural que haja a necessidade de se repensar esta rede. Hoje o sistema acaba privilegiando as ligações entre municípios, devido à configuração da rede, da região metropolitana, em conjunto com a tarifa única. Este modelo ainda atende às necessidades? Acredito que esteja na hora de repensar a rede e de fortalecer as ligações locais, internas aos municípios”, afirma Érika.

Trânsito desarticulado

Também perito em trânsito, Antenor Pinheiro ressalta que, por outro lado, a mudança no planejamento deve levar em consideração a realidade do tráfego. “Com a atual dinâmica de trânsito que estamos experimentando na região metropolitana de Goiânia, totalmente desarticulado e com o principal órgão de trânsito sucateado, nem a inteligência dos sistemas europeus e canadenses funcionariam por aqui”, diz.

Pinheiro acredita que a capital poderia ter avançada tecnologia, frota veicular nova, legislação moderna e excelência técnica atuando na rede que nada melhoraria ao usuário se não há “o mínimo de infraestrutura adequada para os ônibus fluírem com prioridade absoluta”. Segundo o perito, o problema na região metropolitana não é a falta de ônibus, mas de viagens adequadas.

Fluidez no trânsito é ponto chave do ônibus, até para a Justiça

Em 2014, as empresas concessionárias do transporte coletivo da região metropolitana de Goiânia conseguiram na Justiça que não fossem multadas por atrasos ou adiantamentos no cumprimento das planilhas de viagens. A alegação acatada pelo judiciário foi de que o poder público, antes de cobrar o cumprimento do horário, deveria dar condições de fluidez no trânsito, sobretudo na construção de corredores preferenciais ou exclusivos para os ônibus. A medida é válida até hoje, apesar de contestada.

A situação comprova que não é possível pensar o transporte coletivo como um sistema a parte da mobilidade urbana. Tanto que, entre as medidas para melhoria do sistema propostas pelo especialista Antenor Pinheiro está a sequência da implantação dos corredores em Goiânia, concluir o BRT Norte-Sul, modernizar a rede semafórica na capital e revitalizar as calçadas, além de reformar e implantar os abrigos dos pontos de ônibus. A professora Érika Kneib cita uma medida mais simples: respeito às leis de trânsito.

Fonte: O Popular