Goiânia: Sem sincronia semafórica, capital vive caos no trânsito

O trânsito de Goiânia ficou ainda mais complicado desde a manhã de ontem com o desligamento do software temporizador que controla a sincronização de 684 semáforos instalados nas principais vias. A manutenção destes equipamentos já estava interrompida desde o dia 14.

A empresa paranaense Dataprom, responsável pelo serviço, alega uma dívida da Prefeitura superior a R$ 1 milhão. Titular da Secretaria Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade (SMT), Felisberto Tavares diz que não tem como pagar a dívida e que vai procurar o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) para acelerar o processo de um novo contrato. “Nós fomos inadimplentes com eles”, assume Tavares.

Motoristas se mostraram irritados com o tempo perdido no trânsito. “Realmente o meu trajeto ficou mais demorado nesses últimos dias. Só que hoje bateu o recorde. Pego um trecho pequeno, porque a empresa que eu trabalho é perto daqui (Avenida 85) e, mesmo assim, já deu para sentir”, conta o contador Felipe de Morais, que ficou parado por cerca de 15 minutos na Avenida 85. Apesar de constatar a demora, ele não sabia da situação dos temporizadores.

Lentidão no trânsito também foi relatada durante a manhã nas Avenidas T-4, T-8, T-9 e C-206, no setor Jardim América. A falta de sincronização nos semáforos ainda foi registrada na Avenida Engenheiro Atílio Correa Lima, no setor Cidade Jardim, e na 24 de Outubro, em Campinas.

Renegociação

Representantes da Dataprom tentaram, no início deste ano, renegociar a dívida, sem sucesso. Primeiro, conversaram com Tavares e depois com o prefeito Iris Rezende. Por fim, encaminharam ação extrajudicial informando o risco de suspensão por falta de pagamento. Nenhum prazo foi dado para a quitação da dívida. A empresa queria o pagamento integral.

O titular da SMT diz que a suspensão do serviço pode ser interpretada como uma quebra de contrato e que a secretaria pode buscar uma nova empresa para fazer a sincronização. Entretanto, reconhece que seria um processo demorado. “Quando eles não se dispõem ao acordo e suspendem o serviço, estão desfazendo a parceria.”

Em entrevista à rádio CBN, o secretário disse que, caso a empresa retirasse a sincronização semafórica, o trânsito em Goiânia viraria “um verdadeiro caos”. A afirmação é de antes da retirada total. “Vai piorar e muito. Nosso sistema é sincronizado, permite a fluidez, embora tenha alguns problemas. Sem ele, teremos muitas dificuldades. A administração atual está em dia. Mas temos uma dívida, da gestão passada, desde junho com a empresa”, relata.

Como já mostrado pelo POPULAR, na edição da última quarta-feira, a gestão Iris priorizará os débitos atuais. As dívidas da administração passada serão renegociadas e a intenção é quitá-las apenas no segundo semestre.

Gerenciamento é essencial

Professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) na área de transportes, Sérgio Botassi dos Santos critica a maneira como a Superintendência Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade (SMT) gere o trânsito e avalia como negativa a maneira de se implementar as intervenções na capital. “O que está ruim pode ficar ainda pior. Esse gerenciamento não pode ser intuitivo. Deve ser pensado em uma cadeia de redes. Quando se tem uma falha em uma via, pode dificultar outras adiante. Um efeito em cadeia. Há necessidade de melhorar porque temos uma situação já crítica e agora se torna preocupante, porque é um sistema essencial em qualquer grande cidade”, diz.

Ele cobra da secretaria um acompanhamento mais aprofundado do fluxo. “Conhecer melhor o fluxo, mapear a origem e destino das viagens. Em quais setores o fluxo é maior. Entendendo essa dinâmica de viagens poderíamos utilizar melhor essa tecnologia. É preciso melhorar isso nessa gestão. A hierarquização de uma via principal e outras secundárias não é obedecida mais. Com o tempo, observamos algumas vias que viraram principais”, afirma.

O perito em trânsito Antenor Pinheiro afirma que a sincronização é uma tecnologia importante e indispensável para a gestão de mobilidade de uma forma geral, “principalmente em cidades como a nossa que tem uma frota extraordinária com mais de um milhão de veículos numa malha viária já há bastante tempo saturada”. “É uma questão de responsabilidade. É preciso priorizar. Sem esse controle do sistema de informação semafórico irá comprometer toda a engenharia de tráfego na cidade. Estamos acompanhando um processo de falência da SMT.”

Pessoas que utilizam ônibus são as mais afetadas, diz pesquisadora

A doutora em transporte, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Goiás (UFG) Erika Kneib diz que os principais afetados pela suspensão da sincronização são as pessoas que utilizam os ônibus. “É importante, sobretudo para o transporte coletivo. Minimiza o impacto no trânsito e dá mais agilidade. A Lei Federal de Mobilidade estabelece, assim como o Plano Diretor de Goiânia, a priorização do transporte coletivo. A falta do sistema traz prejuízo grande à população. E é um efeito cascata, no qual todos ficam prejudicados.”

A Diretoria de Transportes do consórcio da Rede Metropolitana de Transporte Coletivo (RMTC), em nota, defende que a sincronização “proporciona maior fluidez do trânsito, garantindo que os ônibus possam cumprir os horários programados e, por consequência, proporcionar aos usuários um serviço com mais qualidade”. Os prejuízos, diz a nota, “são muitos, dentre eles trânsito lento nas principais vias, além do risco de acidentes”.

Fonte: O Popular