Goiânia: Eixo Anhanguera - 40 anos de muita história para contar

Há quem diga que um goianiense que se preze tem de ter andado pelo menos uma vez no Eixo Anhanguera. E, para isso, já houve tempo de sobra, afinal o sistema que surgiu, originalmente, com o nome de Sistema Integrado de Transporte de Massa completou em 2016 quatro décadas de existência, sendo responsável hoje pelo trânsito diário de pelo menos 200 mil pessoas. O Eixo, Eixão, Minhocão, Sanfonão e tantos outros apelidos dados a ele faz parte da história não só de Goiânia, mas de inúmeras pessoas que utilizam o serviço todos os dias.

Críticas e problemas não faltam, é claro. A insegurança, especialmente nos terminais, questão que deu o tom da discussão nas últimas semanas, é algo que persegue o Eixo Anhanguera, e não é de hoje. Dos 40 anos de existência, Jovair Rosa de Souza testemunhou e participou ativamente de 39. Ele é a pessoa que há mais tempo continua como motorista e funcionário da Metrobus, empresa responsável pelos ônibus do Eixo. “O grande problema são os batedores de carteira, e toda vida teve. Quando o povo começava a gritar lá atrás, eu já sabia do que se tratava”, conta.

Por outro lado, deixar de destacar as vantagens e benefícios gerados pelo Eixão é algo que seu Jovair, o “velhinho” da garagem da Metrobus, não consegue fazer. O que era para ser apenas um trabalho temporário, de seis meses, por causa de uma hepatite que inviabilizava as constantes viagens como corretor de imóveis, virou o trabalho de uma vida; o que carregava, em 1976, cerca de 36 mil pessoas por dia e, apenas no trecho entre os Terminais do Dergo e da Praça da Bíblia, hoje faz cinco vezes mais, e numa distância que extrapola os limites da capital.

A paisagem da Avenida Anhanguera foi incisivamente modificada. Boa parte da via cedeu espaço para plataformas, estações e divisórias para separar o tráfego. Os comerciantes, grandes opositores das alterações, sentiram as consequências nas vendas já nos primeiros meses, em 1977. A controvérsia do Eixão, com prós e contras bem definidos, rendeu e rende sucessivos debates. Em meio aos transtornos, no entanto, o corredor que corta a cidade de Leste a Oeste tornou-se algo sem o qual o transporte público de Goiânia e região não conseguiria viver. “Se você tirar o Eixo, você para todo o transporte da cidade. É a linha mestre”, afirma Jovair.

O projeto do arquiteto curitibano Jaime Lerner surgiu, à época, para melhor articular a rede, com linhas alimentadoras e desafogar o trânsito, que, há 40 anos, já possuía pontos significativos de estrangulamento e desordem. A ideia era, com um Eixo único, reduzir a quantidade de ônibus no centro da capital. O início, como é de se imaginar, não só alterou a rotina da cidade e enfrentou percalços, como gerou curiosidade e atraiu o público, cuja intenção não era tão somente utilizar o transporte para ir trabalhar ou voltar para casa, mas para conhecer a novidade.

Já no primeiro dia, após inauguração que contou com a presença do então presidente Ernesto Geisel, O POPULAR noticiou a falta de troco para dar aos passageiros. O valor da tarifa oscilava em 1 cruzeiro para viagem integrada e 80 centavos para viagem semi-integrada. O governo e a Transurb, empresa responsável pelo serviço nos primeiros anos, colocaram 10 mil cruzeiros em moedas de 10 centavos, acreditando que seria o suficiente. Os ônibus começaram a circular às 5 horas. A procura foi tanta que, às 8 horas, já tinha acabado todo o troco.

Os pontos viviam cheios, o que amedrontava motoristas de primeira viagem, como Jovair. “Comecei numa tarde, por volta de 16 horas. Fiquei apavorado. Até pensei que não fosse dar conta.” Ônibus pequenos, com portas únicas de entrada e saída, facilitavam o tumulto. E, em meio a trabalhadores, iam aqueles que queriam conhecer a cidade, já que o Eixo passava por pontos importantes da cidade, como o Lago das Rosas, Teatro Goiânia, acervo de Art déco do Centro e outros.

Eixo único facilita a saturação

No Eixo Anhanguera, encontra-se tudo. Nos terminais, vende-se até camarão seco, sabão em pó, creme dental e cadeado. Pelos ônibus, passa gente de várias cidades da região metropolitana, de todas as idades, origens e condições. As plataformas estão sempre cheias de passageiros entrando e saindo com um fluxo que não para nem durante a madrugada, quando o Corujão passa de hora em hora. A sensação de um tudo num mesmo espaço é uma das evidências visuais da saturação de um eixo único, com função essencial no transporte público de Goiânia.Várias mudanças ocorreram desde que o Eixo foi inaugurado, em 1976.

Tentativas de adequação, melhora do serviço e até substituição do modelo adotado, com a implantação do Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT) foram algumas das ações e discussões que contextualizaram a realidade do Eixão durante suas quatro décadas de existência. Não raro, claro, questionar sobre a real eficácia hoje em dia e atendimento da demanda faz parte da rotina.Apesar das polêmicas e problemas enfrentados ao longo do tempo, desenvolvendo-se diante de uma série de dificuldades e consequências da saturação, há quem defenda a agilidade de um corredor exclusivo. Um dos arquitetos e urbanistas mais tradicionais de Goiânia e que viu o Eixo Anhanguera ser inaugurado, Fernando Rabelo é crítico à existência de um eixo único de transporte coletivo numa cidade, segundo ele, que já devia ter outros em direções variadas para facilitar e acelerar o fluxo da população.

“Isso significaria uma malha, em tese, mais ou menos ortogonal, promovendo o fluxo para outras direções e desafogando um pouco o Eixo Anhanguera. Quanto mais se joga para lá, pior fica. Vai concentrando, e não somente a demanda de passageiros, como todas as situações que isso acarreta”, afirma. A própria insegurança seria um dos fatores a se concentrar conforme a presença de um número maior de pessoas. O que seria uma das soluções, na visão de Rabelo e, ao mesmo tempo, um pecado cometido pelo poder público em Goiânia, foi a não utilização do leito da ferrovia que cortava a cidade, hoje ocupado de diversas formas. O caminho seria uma saída para a implantação de um novo eixo e, inclusive, para a implantação do VLT, cogitado anteriormente para a Avenida Anhanguera.

“Goiânia será a única cidade do mundo que não usou a rede ferroviária urbana para transporte público”, frisa. O BRT Norte-Sul, quando concluído, será uma opção a mais e que tende a servir moradores de regiões, até então, não contempladas com corredores exclusivos, como é o caso de Aparecida de Goiânia, completamente interligada à capital. O interessante da história de Goiânia é que, inicialmente, quando planejada, há 83 anos, previa-se um desenvolvimento no sentido norte-sul, o que só veio acontecer depois. O eixo leste-oeste acabou se expandindo primeiro, em razão de uma série de fatores.

Fernando Rabelo lembra que a Anhanguera era a continuação da rodovia que ligava Leopoldo de Bulhões à Trindade. Ao mesmo tempo, no entanto, era onde ficavam as saídas para São Paulo e Mato Grosso, com as duas pontas ocupadas essencialmente por grandes armazéns e depósitos para facilitar a chegada e saída dos produtos. Aos poucos e naturalmente, o eixo foi se desenvolvendo e a Anhanguera ganhando importância cada vez maior no contexto da cidade. 

Hoje, ela é referência imprescindível de localização e transporte no centro, sobretudo de quem vem de outros municípios, já que a avenida continua ligando rodovias importantes, como as GOs 060 e 070 e a BR-153. Isto tornou-se ainda mais evidente à medida em que os ônibus do Eixo Anhanguera começaram a operar em outros locais da região metropolitana, como Senador Canedo, Goianira e Trindade. Segundo a Metrobus, de 18 cidades do entorno, 15 possuem linhas que se integram ao Eixo.

Histórias em várias etapas da vida

“Portas fechando”, informa o áudio interno do ônibus. O senhor de 59 anos embarca e se ajeita em um dos acentos próximo à janela. Dali, como sempre, ele vai observando o que se passa na rua, como o grupo de homens que joga baralho na calçada da avenida, mas sem perder de vista a estação em que precisa descer, afinal o trajeto é bem definido. Jeová Rodrigues Barbosa é morador do Jardim Novo Mundo. Já andou e anda muito de Eixo Anhanguera.

No passado, ia com os amigos até o Lago das Rosas, local de encontro dos mais jovens. Hoje, passa de hospital em hospital realizando um trabalho social de visita aos pacientes. A reportagem o encontrou na estação do Hospital Alberto Rassi (HGG). Dali, ele seguiria para o Setor Universitário, desembarcando próximo ao Hospital das Clínicas (HC), e indo, em seguida, para o Hospital Araújo Jorge. Sem os ônibus do Eixo, e ele reconhece isso, seria difícil realizar o trabalho com a agilidade que é hoje. “Faço muitas baldeações, pego um, depois pego outro, então seria complicado se não tivesse. E o Eixo não para. Toda hora tem ônibus, não falha. Se um quebra, logo vem outro, ou seja, dá para confiar”, considera.

E a vantagem de Jeová, ainda, é que o ponto final do corredor, no Jardim Novo Mundo, fica a poucas quadras da casa dele. “Vou ao supermercado de Eixão”, conta. O problema hoje, nítido para quem vive de perto a realidade diária do Eixo, é o horário de pico. Para o senhor que, muitas vezes, acorda cedo para pegar o ônibus ou deixa os hospitais no final de tarde, o ideal seria ter mais veículos em determinados horários. Segundo a Metrobus, já existe uma tática neste sentido. Nos dias úteis e em horários de pico, ainda de acordo com a empresa responsável pela principal linha de ônibus da capital, são oferecidas mais de 100 viagens em ciclo aberto.

Uma relação que vai além do trabalho

Admilson Lima da Silva vende água, refrigerante, doce, chocolate a até sabão em pó. E é assim, de ônibus em ônibus, de terminal em terminal que ele vai juntando o dinheiro suficiente para sustentar a família. Natural de Ceilândia (DF), ele veio para Goiânia em 2003 em busca de oportunidades de trabalho. Ex-segurança, ex-auxiliar de limpeza, ex-carpinteiro e ex-soldado, ele encontrou no vai e vem dos ônibus do Eixo Anhanguera, sempre cheios, uma saída para trabalhar e já se vão 13 anos de uma vida que hoje, segundo ele, vale a pena. “Numa crise como esta, sem emprego e se não existisse o Eixo, seria difícil sobreviver”, acredita.

No dia a dia, são vários os obstáculos enfrentados, pois convive-se sempre com a ameaça da fiscalização e boatos de que os ambulantes serão retirados dos terminais e ônibus do Eixo. “Os seguranças já ameaçaram até bater na gente, mas nunca aconteceu nada”, conta. Da mesma forma, ele diz nunca ter sido roubado ou furtado, porque existe uma espécie de cuidado mútuo entre os vendedores. Quando um fica sabendo de alguma coisa ou percebe algo suspeito logo avisa o colega e assim vai seguindo o que ele chama de família dos camelôs do Eixão. Uma família grande, aliás, porque são vários e em todos os lugares, ao longo dos 13,5 quilômetros da Avenida Anhanguera.

Quando chegou em Goiânia, Admilson, que hoje mora com a família na região noroeste da cidade, usou de imediato o Eixo para conhecer a cidade, levar os filhos para passear, ir ao Centro, Lago das Rosas e outros locais. A relação logo se formou não apenas na questão financeira e de trabalho, mas o Eixão tornou-se ainda o referencial de meio de transporte do rapaz de apenas 24 anos e da família formada por esposa e quatro crianças. “Não adianta, isso aqui é o coração da cidade. Tudo acontece aqui”, afirma ele, que clama por uma solução para a situação dos vendedores.

Três horas por dia dentro do ônibus

Todos os dias, quatro horas da manhã, o despertador toca, Santina acorda, arruma-se rapidamente e sai de casa ligeira, caminhando por 20 minutos até chegar ao ponto e pegar o primeiro ônibus do Eixo Anhanguera para Goiânia. Santina Pereira da Silva, de 32 anos, é empregada doméstica, mora no Residencial Aracy Amaral, em Senador Canedo, e, desde 2005, passa diariamente pelo Eixão, a caminho do trabalho, no Setor Oeste, em Goiânia, e voltando para casa no final do dia. Ao todo, segundo ela, são cerca de 3 horas diárias dentro dos ônibus para fazer o trajeto. “Para mim, se não existisse isso, seria muito difícil. É algo com o qual podemos contar. Tanto, que quando algum ônibus estraga, a gente sente falta e tem estragado muito, ultimamente”, relata.

Santina é mãe solteira, cuida sozinha de duas filhas, uma de 12 e outra de 14 anos. O sustento de casa vem do esforço diário, vencendo limites próprios, no aperto do ônibus quase sempre lotado e perigoso. Ela já foi assaltada duas vezes. Na primeira, estava sozinha e, na segunda, com a filha mais velha. Dois rapazes chegaram, encostaram a faca nelas e levaram tudo: bolsa, documentos, celulares, dinheiro. Nada foi recuperado e, hoje, ela conta tudo com a naturalidade de quem presencia casos diários nos terminais e plataformas do Eixão.

Os ônibus partem para Senador Canedo de hora em hora, praticamente. As plataformas dos terminais lotam e o empurra-empurra faz parte da rotina. Muitas vezes, não dá para todos embarcarem e mais parece uma competição. Santina está acostumada a pegar o ônibus de volta para casa no último terminal do Eixo, o Novo Mundo, mas o normal é ele já chegar lá abarrotado, o que obriga não só ela, mas outros moradores da cidade a retornarem para terminais anteriores para terem mais chances de brigar pela vaga no espaço limitado.

Surfe e rabeira nos veículos do Eixo

São três as impossibilidades. A primeira é que é impossível não notá-lo. A segunda é que é impossível, para ele, passar pelo Eixo Anhanguera sem que alguém peça para tirar uma foto ou perguntar se a tinta demora para sair. Já faz parte da rotina. E a última é que seria impossível pensar a vida de Paulo Costa, o Homem Prateado, de 38 anos, sem as aventuras do Eixão. É graças aos ônibus que ele consegue chegar aos locais de trabalho, geralmente nas esquinas da Avenida T-63, do Setor Campinas e próximas ao Shopping Flamboyant. É graças aos ônibus, ainda, que ele vai comprar o glitter prata para passar no corpo e consegue, ao final do dia, voltar para casa, que fica no Residencial Triunfo, em Goianira. “Sem o Eixo, estaria todo mundo na rua, sem outra opção”, diz.

Há pelo menos 20 anos, o dia a dia do Homem Prateado tem como integrantes essenciais as idas e vindas do Eixo Anhanguera. Ele se recorda de quando sequer existia a Metrobus e os ônibus ainda eram da Transurb, menores, quadrados, mas ótimos para surfar. Sim, surfar. Ele e os amigos do Bairro Capuava, em Goiânia, onde morou com a família no passado, tinham o hábito perigoso, mas característico da época, que era andar sobre os ônibus do Eixo ou pegar a chamada rabeira, enquanto andavam de bicicleta. “Já surfei demais com a rapaziada do Capuava. Isso aqui era cheio de palmeiras”, diz, referindo-se à Avenida, que passou por sucessivas mudanças.

Prateado é ex-lavador de carros e trabalha como artista de rua há oito anos. É solteiro, não tem filhos. “Eu me chamo ninguém”, respondeu quando perguntado pela primeira vez, complementando, em seguida, com uma série de reclamações sobre a realidade do Eixo e as condições do serviço. Apesar de reconhecer os benefícios, ele não deixa de frisar: “Está caro andar de Eixo hoje em dia, ainda mais se considerar o tratamento que o passageiro recebe”.

Fonte: O Popular