DF: Máfia dos cartões expõe falhas que elevam tarifas do transporte público

A máfia dos cartões opera sem nenhuma discrição na Rodoviária do Plano Piloto. A todo momento, a venda irregular de bilhetes acontece sem fiscalização nas catracas do terminal. O esquema segue firme ao longo dia e só termina junto com a movimentação na plataforma inferior.

Na prática, a falcatrua funciona sempre da mesma maneira. Os “espertinhos” abordam os passageiros antes da catraca que dá acesso ao BRT e oferecem passar o cartão referente àquela viagem. Os usuários que aceitam a proposta, portanto, pagam o valor do bilhete, que, no caso do BRT é de R$ 5, e embarcam normalmente. Já os criminosos, além de colocarem o dinheiro no bolso, continuam com o cartão e repetem o processo inúmeras vezes.

Homens, mulheres e adolescentes passam horas lucrando dessa forma. Alguns, inclusive, camuflam a prática atuando como vendedores ambulantes. Mas, no geral, a preocupação deles é mínima e ação acontece na frente de todo mundo.

O crime envolve todos os tipos de cartões oferecidos pelo governo. São eles: cidadão; especial; estudante e vale-transporte (leia o saiba mais). Já o cartão funcional, que é entregue apenas aos funcionários das empresas operadoras do transporte público do DF, não foi visto envolvido na máfia.

A maneira como esses passes chegam até o poder dos criminosos é variada. Segundo relatos, existem pessoas com deficiência, por exemplo, que vendem os bilhetes e depois dão entrada em um novo. Estudantes também fazem o mesmo. Além disso, o lucro é ainda mais fácil com o cartão do tipo cidadão.

“Eles são espertos. Compram o cartão por um valor e vendem pela mesma quantia. Porém, em seguida, passam o bilhete no sensor de um ônibus integração e, automaticamente, ganham uma viagem gratuita, que logo é vendida a um passageiro. Ou seja, eles lucram o dobro do dinheiro gasto. Por isso, não é raro vê-los vendendo no BRT e correndo para o ônibus”, detalhou um comerciante.

O esquema também acontece dentro dos coletivos. Não por acaso, é comum ver usuários repassando dinheiro e devolvendo o cartão pela janela.

Justificativas comuns

A justificativa para que muitos passageiros comprem, ainda que conscientes da máfia, as viagens de cartões irregulares é a precariedade do sistema oferecido pelo GDF. Quase todos os usuários reclamam da distância para recarregar os passes e do atendimento no balcão do DFTrans. Ontem, dos sete guichês disponíveis, quatro estavam funcionando.

“Todos os dias eu passo pela rodoviária. Essa prática é muito comum. Já me ofereceram várias vezes, mas nunca comprei, até porque já tenho o meu preferencial. É um mercado negro. Tenho minha consciência tranquila, mas também entendo o lado dos passageiros. É sempre uma luta abastecer o passe. Quando não é uma fila quilométrica, o atendimento está fechado”, declarou uma secretária de 31 anos, que é deficiente auditiva.

Durante a reportagem, a Polícia Militar flagrou a ação de um homem em frente ao BRT e apreendeu o seu cartão, que foi quebrado em seguida. De acordo com a corporação, em poucos dias, 13 cartões foram confiscados no local e serão entregues ao DFTrans. Ainda segundo a PM, o esquema já conta com olheiros para ajudar no caso de uma aproximação dos militares.

Saiba mais

O cartão Estudante é destinado a quem tem direito ao passe livre. O Especial beneficia os passageiros com alguma deficiência. Existe ainda o vale-transporte, oferecido pelos empregadores. Já o Cidadão engloba os que não se enquadram em nenhuma das outras categorias. Ou seja, neste caso, a pessoa poderá comparecer a um posto de atendimento do DFTrans e comprar o benefício.

Na última quarta-feira, o secretário de Mobilidade, Fábio Damasceno, afirmou que o GDF não tem controle sobre a venda e o repasse irregulares dos cartões do passe livre estudantil.

Fonte: Jornal de Brasília