Goiânia: Para arquitetos, planejar e investir em mobilidade deveriam ser prioridades

Em um quadro geral que engloba todas as cidades brasileiras, o desemprego, o aumento da violência e a queda na arrecadação são problemas que cairão no colo dos novos prefeitos e eles terão de encontrar caminhos para administrar nesse cenário. Mas aliados a esses desafios, chegam a corrupção, as más administrações dos gestores anteriores e desvios de recursos que deveriam ter sido aplicados em investimentos nos municípios.

De acordo com a arquiteta e urbanista Anamaria Diniz, nos últimos dez anos não foi possível perceber investimentos que trouxessem contrapartidas para as cidades, principalmente na capital. Houve a permissão da verticalização e do adensamento de algumas áreas sem garantir obras em infraestrutura e melhorar o transporte coletivo que poderiam aumentar a capacidade de atender às novas demandas que surgiram.

“O futuro prefeito de Goiânia terá como maior desafio principalmente resolver a mobilidade”, destaca Anamaria. E para que isso aconteça, não só na capital, mas em todas as cidades goianas, é preciso que o político que assumir o cargo no Executivo não tenha comprometimento com grupos corporativos, alerta a arquiteta.

“Goiânia é uma cidade atualmente feita para uma minoria. Perdeu em todos os aspectos que tinha de positivo. Não temos o direito de circular, nosso transporte é de péssima qualidade, não há segurança, com ruas escuras, pouco policiamento. Os espaços públicos não são ocupados. Há pouca compreensão do nosso processo histórico. Acho que não se resume à nossa cidade.”

Valorização dos técnicos

Um ponto defendido pela por A­namaria é a valorização dos quadros técnicos de cada área nas prefeituras. “No Brasil esses profissionais nos últimos 20 anos têm sido cada vez mais desvalorizados, tanto na remuneração quanto de participação nas decisões e envolvimento em questões importantes para a cidade. Essa desvalorização é proposital”, aponta.

A arquiteta alerta que quando uma prefeitura contrata uma empresa terceirizada para atualizar seu Plano Diretor, essa gestão abre espaço para que intervenções comprometidas com a especulação aconteçam. Ela cita o exemplo do Setor Noroeste, em Brasília, que foi planejado por um escritório de Singapura, em detreimento de profissionais da cidade.

Ela afirma que Goiânia, por ser uma cidade nova, passa por um processo lendo de mudança no perfil administrativo. “A cidade é nova, mas as práticas políticas são antigas e arcaicas”, observa. Parte da mudança das cidades, com a busca de gestões mais eficientes e com qualidade nos serviços prestados à população, passa pelo processo de evolução da sociedade para conseguir enfrentar os desafios dos municípios.

“Se a comunidade local continuar pensando que Goiânia é a cidade com mais qualidade de vida do planeta, a capital mais verde da galáxia, que tem a melhor arquitetura do mundo, esses rótulos que cegam poder enxergar a realidade, continuaremos a eleger políticos populistas. Ouvir o horário eleitoral atualmente é muito triste. Os candidatos apostam na pouca informação do eleitorado.”

Para Anamaria, o maior problema dos gestores municipais que precisa ser modificado é ter projetos e políticas públicas executadas sem participação da sociedade. A arquiteta diz entender que o respeito pela população virá quando as pessoas que administram as cidades forem transparentes com os gastos e finalizarem obras com qualidade. “Por que temos que pagar mais caro por obras públicas de péssima qualidade? Pagamos caro por tudo isso, por segurança, educação e saúde, que efetivamente não temos.”

Foco no planejamento

“Os grandes desafios que essa gestão vai enfrentar são a mobilidade urbana e o transporte público.” A declaração do arquiteto e urbanista Bráulio Vinícius Ferreira vem acompanhada de um pensamento: “Pre­ci­sa­mos pensar a cidade com planejamento”. Ele, que é professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), defende a recriação do Ins­tituto de Planejamento (Iplan) na capital.

“A mobilidade é um nó que gera uma série de problemas. Quando o deslocamento é lento fica mais caro, porque você fica mais tempo no trânsito”, afirma. E uma barreira a ser rompida ao se pensar a gestão como um cargo público eletivo é planejar as cidades com o pensamento a longo prazo. “O que os candidatos apresentaram na campanha é algo tão pífio que deveria ser considerado crime eleitoral dizer que vai colocar mais ônibus nas ruas, Cmeis sem férias, mais Cais.”

Para o arquiteto, é necessário pensar as cidades com foco, por exemplo, no planejamento da expansão urbana, na forma como se ocupa as áreas de um município. “Não podemos ter a infraestrutura de uma cidade a serviço da especulação imobiliária”, reclama. Um dos avanços que seria possível é acreditar em uma parceria na gestão entre o Executivo e a Câmara Municipal.
Bráulio usa o exemplo de Goiânia, que completa 100 anos em 2033, para imaginar uma gestão que pense a cidade com base nos próximos 17 anos. “O mandato de quatro anos é o que podemos considerar de curto prazo, e oito anos médio prazo. A campanha se fixa no imediato, que é o reflexo da falta de planejamento de muitos anos.”

Transporte público

A incoerência apontada pelo arquiteto no transporte público está na gestão. “É uma concessão que está nas mãos de empresas privadas. E abrir mão da gestão do poder público é abrir mão do benefício de quem usufrui do serviço”, analisa. Tanto na questão do transporte quando na discussão dos vazios urbanos, Bráulio diz que há uma dificuldade em perceber nos políticos eleitos um interesse real em tocar nessas feridas das cidades.

Uma das soluções seria ter um Poder Legislativo forte, que fuja das propostas de políticas públicas emergenciais e adote como eixo de suas ações o Plano Diretor de uma cidade. “A gestão do transporte coletivo está travada em um imbróglio contratual. Cabe à população cobrar soluções”, afirma.

Modernizar a gestão das cidades parte do princípio de que é necessário que as ações deixem de ser apenas para apagar incêndios nas cidades. “Gosto muito de ter institutos na gestão das políticas públicas para que se tenha um pensamento mais amplo das áreas e necessidades do município. Se não for assim vamos ficar presos a esse ciclo eleitoral imediatista.”

De acordo com Bráulio, o avanço trazido pela legislação eleitoral ao impedir a doação privada nas campanhas precisa continuar a ser aperfeiçoado com adoção de medidas mais transparentes nas gestões. E a existência de um instituto que planejasse de forma deliberativa, com propostas e diagnósticos das demandas da cidade com formato mais técnico traria mais soluções a serem apresentadas para a Câmara Municipal. “Um exemplo é a lei das calçadas acessíveis. Comemorou-se bastante. Mas a gente não tem nenhuma política de calçadas. Se não pensarmos em um modelo de calçada, como avançar a questão para as calçadas acessíveis se nem calçada a temos?”

Fugir do problema de ver uma gestão sem orientação, sem um norte, pode vir de um formato de planejamento com representação de diversos setores da sociedade. “A prefeitura fornece os dados às entidades participantes, que discutem os problemas existentes e elaboram propostas para tratar esses desafios diagnosticados”, descreve Bráulio.

Fonte: Jornal Opção