Goiânia: “É preciso retomar com urgência caráter público da mobilidade urbana”

Não há mais como esconder uma constatação que é mais do que óbvia para quem estuda transporte e mobilidade urbana: políticas públicas que incentivem o uso de carros e motos como transporte individual no trânsito levarão as cidades ao colapso. A informação não é nova para ninguém, mas os candidatos a prefeito de Goiânia insistem em apresentar como solução para o trânsito a construção de pontes, viadutos e até motovias.

De acordo com a professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) e PhD em transportes, Érika Cristine Kneib, o caminho inevitável e ideal é seguir os quatro eixos estruturantes da mobilidade urbana estabelecidos pela Política Nacional de Mobilidade Urbana, a Lei Federal número 12.587 de janeiro de 2012, e o Plano Diretor de Goiânia: priorizar o pedestre e o ciclista, valorizar o transporte coletivo, integrar as redes urbanas e convencer as pessoas a deixarem seus veículos particulares em casa.

Sem esmiuçar cada um desses itens, todos parecem medidas altamente complicadas de serem aplicadas no cotidiano de uma cidade com políticas públicas. Mas Érika afirma que não há outra saída. “Esses são os eixos reconhecidos tecnicamente para melhorar o transporte e o trânsito de uma cidade.”

O primeiro deles, dar prioridade aos pedestres e ciclistas, está previsto até no Código Brasileiro de Trânsito (CBT), de setembro de 1997, que determina que os condutores de automóveis maiores devem observar a segurança dos veículos menores, inclusive do pedestre, como o indivíduo mais frágil nessa relação.

Érika afirma que a principal transformação que se faz necessária é a da infraestrutura, como o primeiro passo para mudar a gestão do trânsito. “Existem outras questões, mas o transporte precisa ser retomado como de caráter público. Hoje ele é utilizado como algo à margem da sociedade. É visto como algo que só é utilizado por quem não tem opção na capital.”

Esse realidade precisa ser transformada. “O caráter público do transporte coletivo, como prioridade, é o estruturador da cidade, como modelo de mudança da mobilidade urbana da cidade”, explica. A PhD em transportes defende que a visão precisa ser a de que o transporte público precisa ser enxergado como a solução, e não como o problema do trânsito e da mobilidade.

Descentralização

“O próprio Plano Diretor de Goiânia, que rege a capital, determina que a cidade deve se desenvolver a partir de eixos urbanos. Para que isso aconteça, é preciso priorizar o transporte coletivo.” Isso aliado à integração das redes urbanas, que partem da ideia de redistribuir as atividades da cidade para buscar a melhoria da economia, da mobilidade, inclusive das próprias atividades e serviços. “Se você tem todas as empresas no centro e as pessoas moram nas partes periféricas, isso sobrecarrega o trânsito pela manhã e no sentido contrário ao final do dia”, observa.

Érika explica que, por mais que se priorize o transporte coletivo e a sua qualidade como serviço público, nada se dará de efetivo na gestão do trânsito se não houver uma distribuição das atividades nas diversas áreas da capital.

Desafio mais difícil

O quarto e último eixo da mobilidade é o item mais complicado de se aplicar pelo trabalho de convencimento do poder público junto à população, acostumada a políticas que incentivam o transporte individual por meio de carros e motos particulares e deixam de lado o transporte coletivo sempre que possível. “Sem estímulo, as pessoas não vão deixar o carro em casa. E como a fiscalização é falha em Goiânia, hoje é fácil estacionar nas calçadas ou em qualquer lugar, ultrapassar o limite de velocidade nas vias, desobedecer a sinalização horizontal e vertical da cidade.”

A professora da UFG avalia que cobrar estacionamento nas vias públicas é mais do que necessário para mudar a cultura de uso do transporte individual em detrimento da utilização dos ônibus sempre que possível. “Precisamos de uma cobrança que seja diferente da adotada para a área azul. É preciso que haja uma fiscalização ostensiva e mais efetiva, com utilização de tecnologia existente e adotada em outras cidades, que não necessariamente exige um efetivo grande de agentes de trânsito”, explica.

Os recursos obtidos por meio dessa cobrança de estacionamento deve ser revertido diretamente no transporte coletivo ou na implantação de calçadas adequadas aos pedestres e ampliação das ciclovias e ciclofaixas.

Rodízio

O exemplo de São Paulo e outras cidade pelo mundo mostra que a adoção de rodízio de veículos por meio da terminação das placas não deu certo. “Essas experiências comprovaram que a pessoa passa a comprar outro carro com final de placa diferente, uma ímpar e outra par, para utilizar o carro ou a moto de acordo com o dia da autorização do rodízio”, destaca.

Para Érika, o início da implantação dos corredores exclusivo e preferenciais de ônibus em Goiânia é mais do que necessária, mas é preciso haver extensão maior de faixas dedicadas ao transporte coletivo, com um mínimo já estipulado em 150 quilômetros em toda Goiânia.

Outra gestão que deve ser reestruturada é a de criação de ciclovias e ciclofaixas na capital. “É importante priorizar a bicicleta, mas não pode ser feita como uma política isolada. Essas áreas destinadas aos ciclistas precisam acompanhar o desenho urbano.”

Além disso, como no caso da cobrança de estacionamento para que o transporte público se torne uma prioridade, a professora da UFG avalia que também é preciso sacrificar os espaços destinados aos carros e motos. “O canteiro central de avenidas não é um espaço destinado aos pedestres, mas as faixas de estacionamento das vias seriam mais adequadas para colocar ciclovias e ciclofaixas.”

Sem imediatismo

“Mobilidade urbana é algo complicado de se tratar com medidas que sejam feitas como algo imediato a ser adotado”, avalia Érika. É muito mais importante que se faça cumprir a legislação de trânsito existente, que ela considera muito precária em Goiânia. “É preciso redesenhar a política de fiscalização na cidade com muita urgência”, aponta.

Sem a adoção desses quatro eixos apontados como estruturantes da mobilidade urbana, Goiânia não conseguirá melhorar seu trânsito, oferecer um transporte público eficiente e de qualidade e valorizar o pedestre e o ciclista nessa disputa de espaço com carros e motos nas ruas e avenidas da cidade.

Cenário eleitoral

“Eu vejo candidatos que pensam de forma retrógrada quando falam em construção de viadutos, por exemplo. Essa é uma medida que só facilita o motorista a sair de um local que era um ponto de congestionamento e chegar a outro”, critica. Érika afirma que, por conta das ações na mobilidade urbana, a cidade perdeu qualidade de vida, aumentou a poluição e piorou bastante a questão da fluidez do trânsito nos últimos cinco anos. “E incentivar o transporte individual é rebaixar a qualidade de vida.”

A PhD em transportes avalia que um trabalho de mudança na gestão da mobilidade urbana, com adoção desse quatro pontos estruturantes, levaria cerca de cinco anos para que a população comece a sentir as mudanças. “Boa parte já entende que o congestionamento só cresce, que os acidentes só aumentam e que é preciso adotar outra política no trânsito”, observa.

Érika diz que se a política for a mesma, de incentivo ao transporte individual e continuar a tratar o transporte coletivo como um problema e não solução, Goiânia se tornará uma São Paulo do passado. “Até a capital paulista já começou a mudar sua gestão de mobilidade e apresentar alguns resultados.”

Mudar a cidade

A proposta ideal e mais viável é a de mudar a cidade. “Enquanto o transporte público não for resgatado, a mobilidade não vai melhorar. A população ainda tem uma dificuldade de entender que o transporte público tem que deixar de ser uma falta de opção e passar a ser a solução”, declara. Parte dessa dificuldade de perceber essa necessidade de valorizar o uso de ônibus para ir à escola ou ao trabalho, por exemplo, se dá porque no Brasil não existem muitas referências de eficiência nessa área.

Plano de Mobilidade

Coordenadora da equipe da UFG responsável por levantar os dados da mobilidade urbana do Plano da Região Metropolitana, feito pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos (Secima) em parceria com a universidade, Érika diz que há cerca de um mês o grupo tem trabalhado em cima dos dados e daqui a dois meses deve começar a realizar oficinas nas cidades com base nessas informações.

A professora também integra o Fórum Goiano de Mobilidade, que acompanhará os resultados apresentados pela empresa contratada pela prefeitura responsável por elaborar o Plano de Mobilidade de Goiânia. “Em algum momento tanto esse estudo da prefeitura quanto o do Estado em parceria com a UFG deverão ser unificados para pensar em políticas públicas em comum.”

Críticas

A vice-presidente do Con­selho de Arquitetura e Urba­nismo de Goiás (CAU-GO, Maria Ester, critica a proposta de um dos candidatos que pretende criar um grupo de trabalho para criar um plano de metas na área de mobilidade urbana. “Esse candidato sabe que a prefeitura contratou uma empresa no início de julho para elaborar o Plano de Mobilidade de Goiânia?”

Maria Ester também fala sobre a questão da Região Metropolitana. “Quem cuida das políticas para a Região Metropolitana é a Secima (Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos). Algum candidato foi lá saber o que está sendo elaborado para a Região Metropolitana antes de falar que Goiânia está inserida na Região Metropolitana?”

Fonte: Jornal Opção