Goiânia: Andar a pé, de bicicleta, de ônibus e até de carro tem sido desafio cotidiano

Uma cidade com 1,4 milhão de habitantes, 1,11 milhão de veículos particulares e seus problemas para ir e vir. A realidade atual em Goiânia não confere privilégios a ninguém quando é necessário se deslocar pelo município. A pé, o sofrimento é com as calçadas, falta de prioridade e o calor; de bicicleta, falta respeito e condições de tráfego; de carro, há de sobrar paciência e atenção para congestionamentos. Se a única opção for o transporte público, os problemas são vários, desde a insegurança, comum a todas as opções, à falta de conforto e confiabilidade.

O transporte público é o terceiro entre os maiores problemas que preocupam os goianienses, segundo pesquisa Serpes/O POPULAR, divulgada em maio deste ano. E isso é comprovado na realidade dos ônibus e terminais lotados em horários de pico. Mas, como alertam especialistas, embora seja um problema que não se resolve sozinho, sua melhoria afeta positivamente outros aspectos, como segurança e até economia. Nos últimos anos, as principais melhorias no transporte coletivo se deram com a prioridade ao sistema que foi sintetizado na construção de corredores preferenciais.

“A infraestrutura prioritária é um dos pilares para a melhoria da qualidade do transporte coletivo. Mas deve-se lembrar que, enquanto esta infraestrutura de corredores não formar uma rede, pouco será percebido de melhoria pelo usuário”, explica a arquiteta e urbanista Erika Kneib, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG). Já o professor do Instituto Federal de Goiás (IFG), especialista em Engenharia de Transportes, Marcos Rothen afirma que, em todas as pesquisas que fez sobre os corredores, os resultados são de pouca mudança.

Para Erika, o sistema de transporte coletivo é “um conjunto de partes que precisa funcionar, de maneira equilibrada e conectada, para que o mesmo tenha qualidade”. Assim sendo, os corredores preferenciais é apenas mais uma parte do sistema. Daí a importância de se pensar desde a calçada, os pontos de parada, as informações aos usuários, os veículos, pontualidade, frequência, política tarifária e outros elementos. “O transporte coletivo é o sistema motorizado essencial de uma cidade. Se valorizado, é capaz de resolver boa parte dos problemas de mobilidade, corroborando seu caráter de essencialidade.”

Rothen explica que, em Goiânia, não haveria uma solução milagrosa. Segundo ele, o principal problema da capital hoje é a gestão. “A Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) tem que ter a autoridade de dizer o que deve ser feito e as concessionárias respeitarem. Não é ser ditador, deve ser conversado, explicar como é, discutir, mostrar os benefícios, mas hoje não conversam.” Para o professor, pequenas mudanças significam muito no transporte e vai fazendo com que as pessoas passem a apostara no sistema.

A realidade é que, a cada ano, o número de usuários do transporte coletivo vem diminuindo pela falta de qualidade, o que é agravado por uma cultura favorável ao veículo particular. O resultado é que esses usuários vão adquirir carros ou motos, aumentar o tráfego na cidade, causar congestionamentos e/ou acidentes, os ônibus vão se atrasar, outros usuários vão deixar o sistema e assim continuamente. Afora isso, os usuários ainda arcam com R$ 3,70 por passagem, valor alto pelo serviço que recebem, além da tendência de aumentos anuais, pelo contrato de concessão, sem previsão de melhorias.

Mobilidade urbana vai além de políticas de trânsito, dizem especialistas

Um sistema eficiente de mobilidade urbana se dá com a boa e pacífica convivência entre todos, seguindo leis e o bom senso, desde o pedestre ao motorista do caminhão. Uma iluminação boa, uma cidade segura, com calçada, lotes limpos, sinalização nas vias influenciam diretamente na qualidade da mobilidade urbana. É preciso entender se “a mobilidade hoje atende às necessidades da população e quais prejuízos isso traz à qualidade de vida”, avisa a professora Erika Kneib.

A questão é histórica e sofre influência desde o crescimento da cidade e da constituição da região Metropolitana de Goiânia. O ir e vir de Trindade, Aparecida de Goiânia e Senador Canedo são cotidianos e afetam a mobilidade na capital quando se é preciso percorrer grandes distâncias. Além disso, grandes loteamentos foram formados nas pontas da cidade, mas, sem infraestrutura nos locais, é necessário ir até as regiões mais centrais. Na ausência de um transporte público de qualidade, motos, carros e bicicletas passam a ser as opções.

“Em Goiânia, sabe-se que há um uso excessivo de carros e motos, causando congestionamentos. A ausência de fiscalização para este modelo leva a um índice crescente de poluição e número de acidentes. Os espaços da cidade sofrem degradação devido a este uso excessivo e as pessoas perdem espaços de convívio e lazer. Ou seja, a (i)mobilidade vem prejudicando a economia, a saúde e a qualidade de vida. É uma situação que não mais se sustenta”, explica Erika.

Segundo o professor Marcos Rothen, é possível melhorar a mobilidade em Goiânia, mesmo dentro dessa complexidade, sem muitos recursos ou investimentos. Novamente, a solução é a gestão, que confere estabilidade a pessoas competentes tecnicamente e no diálogo para conferir melhorias simples. “Tudo passa por planejamento, informação e controle. Se as pessoas tiverem isso bem feito, vai melhorar bastante”, diz. Assim sendo, diz, é preciso planejar a boa convivência entre pedestres, ciclistas, motoristas e usuários de ônibus, oferecendo e cuidando dos espaços públicos.

Já a professora Erika Kneib acredita ser necessário atacar a causa do problema, e não a consequência ou o imediato. “E quando consegue-se difundir quais são as soluções técnicas mais apropriadas, os desafios da gestão pública em executá-las muitas vezes impedem atitudes corretas para sua efetividade, já que as soluções corretas podem não ser óbvias nem ‘populares’.”

Fonte: O Popular