Goiânia: Lista de transtornos com as obras do BRT é grande

A obra pode até ficar pronta, mas o transtorno vivido por algumas pessoas ficará guardado na memória. À medida que avança a construção da pista do BRT Norte-Sul de Goiânia, as interferências vão junto, complicando a vida de parte da população, principalmente daqueles que moram ou mantêm comércios próximo. Pontos de ônibus retirados sem aviso prévio, redução brusca da clientela, dificuldade para atravessar a pé as ruas por onde a obra passa, poeira e recorrência de assaltos são alguns dos casos relatados pelas pessoas ouvidas ontem pela reportagem do POPULAR.

O sol das duas horas da tarde era o único companheiro ontem do costureiro Steeve Stwart Basílio, de 31 anos, enquanto ele esperava pelo ônibus na Avenida Goiás, em frente ao supermercado Atacadão. O ponto de ônibus do local foi retirado pela construtora responsável pela obra, há cerca de um mês, restando aos usuários do transporte aguardar em local completamente descoberto, sem nenhuma sinalização e separado, quase no meio da avenida, por trincheiras de concreto. “Venho a esse ponto quase que diariamente. Não lembro de terem avisado. Cheguei e já estava assim”, conta.

E a espera é longa. Steeve chegou ontem ao local por volta das 14h06 para pegar o ônibus 037, que o levaria até o Terminal Padre Pelágio e esperou até às 15h05, ou seja, uma hora embaixo do sol e em meio à poeira da obra que avança aos poucos. Assim que ele entrou no ônibus, a estudante Dieniffer Pereira Nunes, de 22 anos, atravessou, surpresa, a avenida ao perceber que aquele local se tratava do ponto de ônibus onde ela deveria esperar. Até então, ela estava do outro lado tentando identificar para onde deveria ir. “Não estou acreditando que isso aqui é um ponto de ônibus. Muito se fala que devemos entender os transtornos das obras, que logo eles passarão, mas isso aqui é o fim do mundo”, definiu.

O cenário de transtorno não tem sido menos intenso para os comerciantes da Avenida Lúcio Rebello, no Setor Alto do Vale, quase chegando ao Terminal do Recanto do Bosque, onde findará a pista do BRT. Em cinco meses, desde que a obra foi iniciada no local, o comércio do empresário Cleudimar de Souza, 43, já foi assaltado quatro vezes. O movimento de clientes, segundo ele, reduziu em cerca de 40%. Com a loja vazia, os assaltantes se sentem à vontade para chegar e praticar o roubo. “Uma vez trancaram minha mulher no banheiro e roubaram. Outra cheguei aqui e encontrei um rapaz com um revólver 38 esperando para assaltar”, relata.

Cleudimar tinha uma segunda loja na avenida, mas teve de fechá-la. Os clientes reclamam da falta de retornos na avenida para facilitar a chegada ao comércio. A pista do BRT reduziu as opções, até então, existentes. Os comerciantes chegaram a organizar um abaixo assinado. Fora isso, dependendo do desnível da via, a consequente altura da pista do BRT dificulta para quem está a pé conseguir atravessar para o outro lado.

Compra de ônibus para operar no BRT

As empresas concessionárias do sistema de transporte coletivo da região metropolitana já avisaram ao mercado que pretendem adquirir ônibus para a renovação da frota e operação no BRT Norte-Sul. A iniciativa é uma maneira de provocar as empresas fabricantes dos veículos e o mercado financeiro para receber propostas para a compra. Oficialmente, a Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) entende que as empresas estão em processo de aquisição dos veículos.

Sabe-se, no entanto, que a operação no corredor será de responsabilidade das concessionárias Viação Reunidas e Rápido Araguaia, esta em processo de recuperação judicial. A Cootego vai fazer o serviço para abastecer o Terminal Perimetral, transportando os passageiros da região do Câmpus UFG e Jardim Guanabara para o corredor preferencial. No trecho sul, com previsão para construção a partir de 2017, a operação será dividida entre a HP Transportes e a Rápido Araguaia.

O processo de aquisição dos veículos se dará a partir de cada empresa. Até junho, em razão da recuperação judicial da Rápido Araguaia, que detém metade do sistema, havia a discussão no Consórcio da Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) de uma compra por cotas, em que as outras concessionárias adquiriam mais veículos do que o previsto para repassar à Rápido, mas não houve um acordo entre as empresas de como seria a compensação financeira.

No entanto, em julho houve uma facilitação legal para que empresas em recuperação judicial pudessem conseguir crédito financeiro, o que viabilizou a operação por parte da Rápido Araguaia e, por isso, assim será a aquisição dos veículos. A Viação Reunidas, por outro lado, estaria em melhor situação e não teria maiores dificuldades para adquirir os ônibus.

Em relação ao BRT, a operação total deve ocorrer com 28 ônibus articulados e 65 ônibus convencionais, todos com piso elevado, mas ainda não há um estudo de quantos veículos são necessários apenas para o trecho norte do corredor. Isso depende ainda de um estudo da operação, já que não se sabe quantas viagens diárias serão necessárias para a quantidade de demanda que ainda será apresentada, além do tempo entre elas.

Paço espera financiamento

A Prefeitura de Goiânia deu entrada em um pedido de financiamento junto à Caixa Econômica Federal de um valor de cerca de R$ 70 milhões para viabilizar as desapropriações necessárias para a obra do BRT Norte-Sul. Até então, houve acordo apenas com um lote do Grupo Carrefour, localizado em frente ao Atacadão para a construção do Terminal Perimetral. Na região do Recanto do Bosque haverá novas desapropriações para o alargamento das pistas para circulação dos veículos particulares.

Segundo a Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC), os valores das avaliações, tanto por parte da Prefeitura quanto pela parte dos proprietários, ainda estão sendo discutidos, mas que há tempo hábil para a finalização do trecho até dezembro. A primeira resposta sobre o financiamento foi positiva e o Paço ainda aguarda uma data para a apresentação de novas informações para a Caixa.

Este seria o único entrave na obra até então para que a promessa de entrega do trecho norte (Praça do Trabalhador e Terminal Recanto do Bosque) seja cumprida. Os pagamentos para o consórcio realizador estariam em dia. No entanto, O POPULAR apurou que está em atraso parte da verba que deveria ser paga em julho. Era previsto o aporte de cerca de R$ 6 milhões, mas apenas R$ 2,5 milhões chegaram às empresas.

A informação é de que o pagamento já foi aprovado pelo prefeito Paulo Garcia (PT), mas falta agora uma negociação com a Secretaria de Finanças para viabilizar a continuidade da obra. O pagamento relativo ao mês de agosto, de R$ 2,2 milhões, foi pago conforme o combinado.

Fonte: O Popular