Goiânia: Uma lenda chamada 'Turma da Lazinha' que aterroriza usuários do Eixo Anhanguera

 
Mulheres jovens, velhas, magras, gordas, altas, baixas, atuando em grupos desde a década de 1980. A arte de subtrair objetos sem a percepção do dono teria sido passada de geração para geração, e a Lazinha, chefe do grupo, estaria agora em casa, aposentada, apenas administrando os roubos. Homens, geralmente dois, fazem a segurança das mulheres quando algum usuário percebe. Há uma linha tênue entre o que é real ou não quando se fala da “Turma da Lazinha”. O nome é o mesmo que há na novela da Rede Globo Ti Ti Ti, de 1985, de uma gangue comandada pela personagem Lazinha. Trinta anos depois, o nome não sai da boca dos usuários, ambulantes, guardas e funcionários dos terminais no Eixo Anhanguera, em Goiânia, que lidam diariamente com furtos na região.

O grupo age sempre em bando. Guardas dos terminais do eixo já contabilizaram mais de 50 membros, em sua grande maioria mulheres – que são quem de fato realizam os furtos. A forma de agir é sempre a mesma. O fato da frequência dos ônibus do eixo ser grande facilita a fuga, como disse o guarda municipal Weder Reis. “Do jeito que elas fazem, fica difícil pegar em flagrante”, contou. De acordo com ele, a turma começou a atuar na década de 80, na feira Hippie, e depois migrou para os ônibus.

Conforme Weder, a Lazinha morreu e passou adiante para a filha e neto, que continuaram dando ritmo aos furtos. Outros dizem que Lazinha está aposentada. O público alvo são mulheres e idosos. Ana Cláudia Souza, 23 anos, contou que já quase foi furtada por um grupo de mulheres. “Ficaram me apertando na porta do ônibus, e eu agarrada na bolsa”, disse, explicando que nunca ouviu falar da turma.

A atuação do grupo na feira Hippie é confirmada pela estudante Tainara Moreira, 20 anos. Há cerca de cinco anos, trabalhou na feira e afirma que os relatos dos feirantes eram constantes. Todos da mesma forma: um grupo grande de mulheres chegam aos poucos, todas fingem que não se conhecem e começam a perguntar sobre a mercadoria. Quando o comerciante percebe, algo lhe foi levado. “Não dá para perceber”, explica.

As histórias continuam cheia de peculiaridades, como um folclore. Alguns usuários relatam que existe uma forma singular de identificação. A estudante de pedagogia Ana Maria Menezes afirma que todas possuem uma tatuagem à vista. Outros já não sabem de tal identificação, mas confirmam a existência do grupo. “Todo mundo sabe quem elas são, mas ninguém tem coragem de denunciar”, conta Luciana Soares, que sai de Trindade todos os dias para trabalhar no Jardim América.

O medo, na verdade, é um relato constante entre os envolvidos com o Eixo Anhanguera. Um vigilante que não quis se identificar conta que junto com os colegas de trabalho já conseguiu identificar 50 pessoas que fazem parte do grupo. Elas revezam os terminais todos os dias, para não serem vistas dia após dia no mesmo local, conforme o funcionário. “Tem hora que tem que fingir de bobo para conseguir trabalhar”, diz.

Rede metropolitana confirma existência

A Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) confirmou conhecer o grupo intitulado Turma da Lazinha, mas que ainda não conseguiu identificar os integrantes. Já o presidente da Metrobus, Marlius Braga Machado, disse desconhecer o grupo, mas afirmou que tem acompanhado as ocorrências de roubos nas linhas do Eixo e está ciente do problema. Conforme o presidente, os próprios motoristas e funcionários da empresa relatam os problemas. Marlius relata que tem trabalhado para resolver a situação junto às autoridades de segurança pública. “É complicado, porque até os nossos funcionários são achacados pelos bandidos”, disse.

A Polícia Militar informou que a observação e identificação de grupos específicos é de competência da Polícia Civil. O órgão reiterou que, em relação a inibir roubos nos ônibus, desenvolve a Operação Bom Dia Cidadão, em que é feita a segurança de usuários nas linhas alimentadoras, e a Operação Terminal, onde uma viatura fica responsável pelo policiamento de terminais e as imediações.

O POPULAR pediu à Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária (SSPAP) dados sobre roubos nos eixos, mas o órgão informou que estas estatísticas não são mais repassadas para a imprensa. A nota diz que “cabe a essa pasta a responsabilidade e o compromisso de, à luz da lei, proteger a sociedade de riscos e danos advindos do uso de informações sigilosas e estratégicas” e que aguarda a edição de um ato normativo que está em preparação, que “poderá classificar as solicitações de jornalistas de acordo com a Lei de Acesso à Informação (LAI).”

Segurança não estava na previsão de custo da Metrobus

O presidente da Metrobus, estatal responsável pelo Eixo Anhanguera, Marlius Braga Machado, disse que a empresa não previu que segurança pública seria um custo a mais quando houve a concessão, afirmando que tudo deveria ser refletido no valor da passagem – mas se o fizer, onera ainda mais o público pagante. “Será que uma passagem de ônibus remunera tudo que a empresa precisa pagar?”, questionou. Marlius afirma que tudo que está ao alcance da Metrobus está sendo feito, com vigilantes e câmeras sendo colocadas nos terminais e plataformas.

Dentre os 133 ônibus do Eixo Anhanguera, em 87 articulados e biarticulados, da frota de 2011, há câmeras de monitoramento, mas não estão funcionando devido a problemas técnicos e de armazenamento, que impedem a captura das imagens. Em nota, a Metrobus diz que não há uma data específica para se resolver o problema. De acordo com o presidente da empresa, no entanto, o fato dela ter responsabilidade sobre a segurança para impedir roubos constantes chega a impedir que seja feito um transporte de melhor qualidade, uma vez que os gastos da empresa têm se entendido.

“Chega a um ponto que fica inviável do ponto de vista financeiro”, disse. Sobre o fato dos tumultos facilitarem a ação dos ladrões, o presidente afirma que o fluxo de veículos é intenso, sendo que no horário de pico rodam ônibus de dois em dois minutos. “Não acho que quantidade de ônibus seja um problema”, contou.

Conforme Marlius, colocar mais veículos será deixá-los a maior parte do tempo ociosos, uma vez que serão utilizados somente nos horários de pico.

Fonte: O Popular