Goiânia: Usuários de ônibus mudam comportamento para tentar fugir de roubos constantes

Um olho no gato e o outro na frigideira. Para viver o dia a dia em Goiânia, tendo que levantar cedo e embarcar em um ônibus, o goiano tem se comportado assim, com muita cautela, para evitar assaltos no transporte coletivo ou nos trajetos aos pontos de embarque. A observação constante e ações desenvolvidas por cada um têm sido absorvidas por todos, como um conhecimento popular. O que os usuários relatam é, na verdade, um manual de sobrevivência diário.

A correria começa nos pontos de ônibus, passa pelos terminais e terminam nos ônibus. As inúmeras histórias sempre têm um mesmo desfecho: assaltos e mudança de hábito. Kristiane Xavier Tunes, 43 anos, por exemplo, deixou de carregar bolsa depois que foi assaltada. Somente o cartão fácil, do transporte, e um celular velho. Há cerca de um mês, ela e a filha de 17 anos sofreram com o terror de um assalto no setor Eldorado Oeste, por volta das 5h40, quando pega ônibus para o trabalho e a filha faz o mesmo para seguir à escola.

No ponto de ônibus se aproximou um motoqueiro, junto com o garupa, e pediram a bolsa e mochila de ambas. Em seguida, ordenam que levantassem as blusas com o objeto de observar se escondiam celular na calça ou no sutiã. “Eu tava com um celular simples, e eles não quiseram aceitar. Foi horrível”, relata a mãe. Agora, Kristiane prefere deixar a bolsa no local onde trabalha, em uma casa no Setor Oeste. A filha deixa a mochila em casa e leva os cadernos na mão, para não chamar atenção.

Na esquina

No Recanto dos Bosques, por depois das 6 horas, Fernanda Mara nem sequer espera o ônibus no ponto. Ela aguarda o transporte na esquina da rua onde mora, e fica olhando de longe enquanto o veículo se aproximar. A mulher adotou a prática depois que foi assaltada no ponto. “A gente fica mais longe pra ser menos visto pelos bandidos”, explica.

Em uma rotina pesada de acordar cedo, trabalhar e estudar, sair de um ônibus lotado sem seus pertences é um tanto frustrante. O jovem Washington Santos, 22 anos, mora em Abadia de Goiás e trabalha em um banco no Setor Sul da capital. Os assaltos nas linhas que saem no Terminal Parque Oeste e seguem para Abadia e Guapó, de acordo com ele, são constantes. “Todo dia acontece. Os bandidos assaltam pessoas no ônibus sempre quando está chegando perto do bairro Bueno Vista. Eles roubam, descem e saem correndo”, explicou. Há um mês, por volta das 20 horas, Washington foi assaltado quando voltava para casa.

15,9% dos ônibus têm câmeras

A Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) informou que somente 15,9% da frota de ônibus da região metropolitana possui câmera, mas que as consorciadas já estão tentando financiamento para colocar em todos os veículos. Entretanto, não há previsão para quando isto será feito.

A RMTC explicou ainda que possui uma parceria com a Polícia Militar desde 2014 em que passageiros podem denunciar crimes ou atitudes suspeitas dentro de ônibus ou terminais por meio de um número de whatsapp, das 4h30 à 1 hora.

Conforme informação da RMTC, até o momento foram registradas 4,8 mil denúncias, em que geraram 200 detenções – o que mostra que 4% das denúncias resultaram em prisões.

A Metrobus, estatal responsável pelo Eixo Anhanguera e suas extensões, informou em nota que desde o consorciamento com a RMTC, no início do ano, foram contratados vigilantes para atuar ao longo do Eixo. A empresa informou que possui ainda parceria com a Guarda Civil Metropolitana (GCM), que tem reforçado a segurança em todo o trajeto, juntamente com as câmeras instaladas nos terminais e plataformas. De acordo com a estatal, existe um vigilante por plataforma.

Sobre a possibilidade de incluir vigilantes nos ônibus, a empresa informou que estuda a questão, porém não há data para execução desta fiscalização interna. A RMTC, por sua vez, informou que não há proposta para colocar vigilantes nos ônibus.

O tenente-coronel Ricardo Mendes, assessor de imprensa da PM, informou que a polícia desenvolve a Operação Bom Dia Cidadão todos os dias, em que faz a segurança de usuários nas linhas alimentadoras e a Operação Terminal, onde uma viatura fica responsável pelo policiamento de terminais e suas respectivas imediações.

“Limpa” em usuários após passagem por barreira policial

As linhas dos ônibus que saem do Terminal Padre Pelágio rumo a Goianira e Trindade são duas grandes reclamações dos usuários de transporte coletivo. Os passageiros relatam que pela manhã, no início da tarde e à noite, os assaltos são corriqueiros nas linhas. De acordo com eles, depois que se passa a barreira policial, ladrões fazem um verdadeiro "limpa" no usuários.

Lúcia Melo, 55 anos, conta que quem pega ônibus de Goiânia a Trindade, ou o contrário, se não é assaltado ouve alguém contando que passou pela situação. Moradora de Trindade, a mulher não deixa a filha de 16 anos utilizar ônibus para o curso que faz em Goiânia – a jovem vai e volta de transporte escolar. “Uma vez um bandido ficou bem perto de mim com uma arma. É perigoso demais”, conta. Quando utiliza o transporte, Lúcia busca não levar bolsa e fica sempre na parte da frente do ônibus.

Sérgio Alves é motorista da linha do Eixo Anhanguera que liga Goiânia a Goianira desde o início, em setembro de 2014, e relata que assalto no ônibus é constante. “Até homicídio, né?”, diz, lembrando do jovem Eduardo Jesus, de 16 anos, que morreu com um tiro na cabeça dentro do ônibus da linha na última semana. O motorista confirma aquilo que os usuários relatam: os assaltos ocorrem, geralmente, quando está perto do ponto onde o suspeito pretende descer.

Fonte: O Popular