DF: Apesar do aumento de apreensões, transporte pirata desafia fiscalização e cresce

O transporte irregular de passageiros persiste, apesar da intensificação da fiscalização. Números do primeiro trimestre dos últimos três anos indicam um aumento de 268% nas apreensões de piratas, mas não precisa fazer esforço para flagrar novos casos. Ontem, horas depois de uma operação de repressão, motoristas irregulares voltaram a agir.

A operação começou antes de o dia clarear, às 4h. De acordo com a Secretaria de Mobilidade, aconteceu nos eixinhos Sul e Norte, Park Way e Candangolândia, além da Rodoviária do Plano Piloto, local estratégico de acesso de passageiros de todo o Distrito Federal e Região Metropolitana. Ao todo, foram autuados 15 condutores, apreendidos 12 veículos e presas 21 pessoas.

De volta em seguida

Mesmo assim, os ilegais não se inibiram. O Jornal de Brasília flagrou carros e vans repetindo a irregularidade pouco depois da operação. Na plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto, por exemplo, sete aliciavam passageiros gritando as rotas percorridas.

Um dos motoristas que se reúnem em um dos extremos do terminal revelou que não há fiscalização que os impeça de trabalhar. “A gente continua todo dia e toda hora, ninguém nos tira daqui”, disse, mas foi repreendido por um outro motorista irregular por “falar demais”.

Nos últimos anos, as apreensões feitas pela Secretaria de Mobilidade (Semob) foram crescentes. Do primeiro trimestre de 2014 ao de 2016, passaram de 45 para 166. Também é maior o número de motoristas e cobradores que vão parar na delegacia por exercer ilegalmente a profissão. Dois anos atrás, nenhum condutor foi preso nos primeiros três meses. No ano passado, 51 assinaram termos circunstanciados. Neste ano, a pasta não divulgou o número.

A prática é crime previsto no Código Penal com multa de R$ 2 mil para a primeira ocorrência, R$ 3 mil em caso de reincidência e de R$ 5 mil equivalente ou superior à terceira ocorrência. Além disso, o condutor tem o veículo apreendido e até responde por exercício ilegal da profissão, que tem penalidade de, no máximo, três meses de reclusão.

Risco assumido por usuário

Na rodoviária, uma das pessoas que aguardavam um pirata para seguir viagem rumo ao Eixo Norte era uma moradora da Cidade Ocidental (GO), na Região Metropolitana, que pediu para não se identificar. “Eu sei que é arriscado, mas assim chego mais rápido ao trabalho”, confessou a mulher. Diariamente, ela gasta R$ 17 para ir e voltar do serviço.

Já o atendente Bruno Guedes, 26 anos, não se arrisca mais. “Estava saindo do trabalho e, com pressa, resolvi pegar o pirata. Era uma Kombi velha, que lotou. Tinha criança, mulher grávida, gente em pé. No meio do Eixo Norte começou a sair fumaça e pegou fogo. O motorista não tinha nem extintor de incêndio. Resolvi não pegar mais porque é arriscar a vida”, contou.

Para ele, operações como as feitas ontem pelo GDF são necessárias. “É um dinheiro desviado e que não dá segurança ao passageiro”, considera, ressaltando que, nos dias de greve no transporte, há superfaturamento no preço.

Versão oficial

“É uma guerra que temos que enfrentar”, classificou o subsecretário de Fiscalização e Auditoria (Sufisa), Júlio César de Oliveira, sobre a insistência da irregularidade no transporte público. Para ele, o resultado da manhã de ontem foi positivo por diminuir o movimento ilegal diário, mas admite que não afastou todo mundo.

“Quando a equipe sai, eles recomeçam. Aqueles que agem de forma mais profissional foram presos. Os que usam veículos particulares são mais difíceis, por serem mais rápidos. Também tivemos que limitar a área de atuação por conta da equipe”, explicou. No primeiro momento, o foco foi o Plano Piloto, mas Oliveira garante que as fiscalizações serão intensificadas e se estenderão às regiões administrativas.

Ponto de vista

“Só existe mercado porque existe comprador e vendedor”, resumiu o pesquisador em transporte público Carlos Penna Brescianini. “O comprador do transporte é a pessoa que precisa dele. Se o governo não oferecer qualidade, segurança e rapidez, as pessoas continuarão se arriscando. Hoje, o transporte é ruim, caro, inseguro, irregular, sujo”, esclareceu.

Para ele, os problemas, que vão desde má qualidade das calçadas à ausência de um metrô como protagonista, dão abertura para a irregularidade. Em relação à fiscalização que não afugentou os irregulares, diz que “a sensação é de que são ações só para inglês ver”.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília