Goiânia: Mais veículos nas ruas, trânsito pior

O problema do trânsito está ligado ao do transporte coletivo, garantem os especialistas ouvidos pelo POPULAR. E o que ocorre em Goiânia se repete em todas as grandes capitais, afirma o perito em Trânsito Antenor Pinheiro. Desde a década de 1940 - diz - a prioridade foi o transporte individual em todo País. Lógica que começou a ser mudada a partir da Copa do Mundo, mas que cobra seu preço. “Remediar isso agora, recuperando o espaço do transporte coletivo, compromete a fluidez do trânsito”, observa Pinheiro. Foi o que se viu em Goiânia com a construção de vias próprias para ônibus que limitaram os espaços dos carros.

Ao mesmo tempo em que investe na melhoria do transporte coletivo, o poder público privilegia o uso do carro, pondera Antenor Pinheiro. Faz isso quando corta o canteiro central da Avenida 85 para aumentar as vias dos carros ou cria viadutos, exemplifica. “Ao restringir o espaço para os veículos individuais o poder público incentiva o uso do transporte coletivo, mas ao ampliar o espaço ele faz o movimento contrário: estimula o uso do carro.”

Segundo Pinheiro, Goiânia ainda se encontra em uma situação mais favorável que outras capitais que já esgotaram a capacidade de transporte coletivo sobre rodas e precisam investir em metrô. “Como a obra do metrô, além de cara, é muito grande e demorada, a fluidez do trânsito iria piorar.”

Capacidade

Na opinião do engenheiro Benjamin Jorge Rodrigues dos Santos, Goiânia já exige um metrô. Até 500 mil habitantes, o BRT (Bus Rapid Transit, na sigla em inglês, ou Transporte Rápido por Ônibus) atende a necessidade da cidade; de 500 mil a 1 milhão, o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) é o mais adequado; mas, acima disso, o metrô é o melhor modelo. “Se o transporte coletivo for de qualidade, o transito é de qualidade”, afirma. Na opinião de Santos, não há outra saída para as grande metrópoles que investir em transporte público.

O engenheiro Sergio Botassi acrescenta outro elemento a essa equação: os meios sustentáveis, como a bicicleta. “Vemos um esforço da Prefeitura de Goiânia para criar ciclovias, mas de forma limitada e não integrada com outros modais”, critica Botassi. Ele explica que as ciclovias em Goiânia não têm continuidade e no final das rotas o ciclista não possui outras alternativas seguras e eficientes de continuar a viagem ou deixar sua bicicleta em segurança.

Na opinião do secretário de Trânsito, Andrey Azeredo, a falta de qualidade do transporte coletivo explica o grande número de carros nas ruas de Goiânia.

Engenheiro critica falta de respeito ao Plano Diretor

Goiânia, junto com Curitiba, é a capital com maior número de veículos do País. Tem quase um carro por habitante. Na opinião do engenheiro Sergio Botassi, o tamanho da frota de veículos tem efeito no trânsito, mas há outros fatores tão ou mais importantes para justificar o estado crítico do tráfego na capital. Um deles, aponta, é a falta de respeito ao Plano Diretor Urbano de Goiânia (PDU).

“O que vemos são várias adaptações do tráfego, alterando sentido e grau hierárquico de vias, mudando tempos semafóricos de algumas avenidas em detrimento de outras, para minimizar e postergar o problema que não está sendo mais possível esconder, pois as alternativas paliativas estão se exaurindo”, destaca Botassi, que é professor universitário e consultor.

O perito Antenor Pinheiro concorda que o grande número de veículos não justifica a dificuldade que se tem em trafegar pelas ruas de Goiânia. “O problema não é o carro, mas o uso que se faz dele.” Segundo ele, há fatores mais importantes, como a falta de uma política de estacionamento que impeça as pessoas de estacionarem nas vias arteriais, onde a velocidade é de 60km/h, e nas ruas onde circulem ônibus. “Proibir estacionamento em Goiânia é impensável porque ficamos reféns dos comerciantes que ainda acreditam que estacionamento é atrativo de venda”, critica.

Planejamento e prioridade ao pedestre

No área de engenharia, falta à capital um monitoramento em tempo real para orientar as alterações no trânsito quando uma via esgota sua capacidade, causando os congestionamentos, argumenta o engenheiro civil Benjamin Jorge Rodrigues dos Santos. Ele explica que é preciso acompanhar a quantidade de carros que circulam em determinada via para planejar as operações de tráfego que podem evitar os congestionamentos: mudar o sentido da via, torná-la mão única ou coordenar os semáforos.

Segundo ele, a Secretaria Municipal de Trânsito (SMT) não monitora o trânsito porque seu corpo técnico é precário. Desde a década de 70 que a secretaria conta com os mesmos sete engenheiros. Santos afirma que o único estudo que é realizado pela SMT é o de Impacto de Trânsito (EIT), obrigatório quando se vai construir alguma nova obra.

Na opinião do perito Antenor Pinheiro, Goiânia não esgotou sua capacidade de ampliar o sistema viário, mas além de investir em vias e marginais, a Prefeitura deveria pensar nos espaços do pedestre e dos ciclistas. “Mas quando se trata de trânsito só se pensa em carro”, critica. A mesma crítica é feita pela professora da UFG Erika Cristine Kneib, doutora em transportes. Para ela, existe uma proposta de priorizar o pedestre e o ciclista, mas as vias continuam priorizando o asfalto, a velocidade e a fluidez. É necessário, defende, trocar o asfalto por outro pavimento que desestimule a alta velocidade.

Fonte: O Popular