Racionalização dos serviços de transporte coletivo por ônibus

Neste momento desafiador, a palavra racionalização tem sido mencionada com bastante frequência. Muitos, no entanto, desconhecem o significado e a importância dela para o transporte público por ônibus. Diariamente, recebemos notícias e relatos de que medidas de racionalização precisam ser urgentemente adotadas, pois a queda da demanda, o aumento dos preços dos insumos mais importantes do setor (combustível e mão de obra) e a queda da velocidade comercial dos ônibus na grande maioria das cidades brasileiras têm inviabilizado a prestação dos serviços. Diante desse correto entendimento das motivações preliminares, a questão é entender como a racionalização deve ocorrer e o que ela proporciona.

Como parte do planejamento e da gestão da mobilidade urbana, a racionalização do sistema de transporte coletivo visa desenvolver melhores serviços prestados à população e diminuir os custos operacionais observados. Como parte do processo de racionalização, as linhas existentes devem ser diagnosticadas (número de passageiros por hora, por sentido e dia da semana, frequência, confiabilidade e acessibilidade),analisadas (viabilidade técnica em função da composição da rede de linhas e serviços), alteradas (itinerário, frequência, veículos utilizados, etc) e novas linhas e novos serviços podem ser implantados gradualmente.

Na prática, esse processo de racionalização permite que o usuário gaste menos tempo nos deslocamentos diários. Por exemplo, uma pessoa que viaja entre a residência e o trabalho gasta aproximadamente 2 horas em uma linha de ônibus. Em função da limitada racionalização, o ônibus percorre trechos e atende áreas que não necessariamente contribuem para atender eficientemente a maior parte dos usuários. Com a racionalização, essa linha será reavaliada e provavelmente será alterada, tendo o seu trajeto diminuído e integrado a outras linhas do sistema. Assim, o usuário poderia ter mais opções de horários e ao mesmo tempo viajaria diretamente ao destino.

A redução dos custos operacionais ocorre à medida que as linhas não são mais sobrepostas umas sobre as outras e os percursos são realizados de acordo com as necessidades dos usuários. Comumente, há muitas linhas que realizam trajetos paralelos entre várias partes das cidades. Com a racionalização, as linhas são redimensionadas para que o usuário tenha opções mais inteligentes e eficientes, ou seja, maior cobertura e menor distância percorrida. Consequentemente, pode ser otimizada uma das principais variáveis que influencia no custo operacional: a distância percorrida, que influencia no consumo de combustível e também no tamanho da frota necessária, no pessoal de operação e todos os outros insumos variáveis.

Outras ações de gestão e planejamento podem magnificar os benefícios da racionalização. Uma das iniciativas mais catalizadoras é a priorização do transporte público, por meio da implantação de faixas exclusivas (ou dedicadas), corredores, BRS e BRT. Em conjunto, racionalização e priorização permitem a diferenciação dos serviços para níveis diferentes de demanda e também ganhos significativos em termos de velocidade operacional. Para tanto, a adoção de estruturas de meios de pagamento, incluindo a bilhetagem eletrônica, permite a configuração de sistemas integrados e que proporcionam maior flexibilidade nos deslocamentos por toda a área urbana.

A expectativa é que o trabalho contínuo de racionalização contribuirá para superar alguns dos desafios atuais e a construção de horizontes da melhoria do sistema de transporte público urbano.

André Dantas, PhD, Diretor Técnico da NTU.

Matéria publicada na revista NTU Urbano edição 18