Goiânia: BRT mudará paisagem da Goiás

A construção do BRT (sigla em inglês para Bus Rapid Transit - Transporte Rápido por Ônibus) irá alterar a paisagem da Avenida Goiás, no Centro de Goiânia. A via, que faz parte do traçado viário dos núcleos urbanos pioneiros tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), receberá plataformas de embarque e desembarque acopladas ao canteiro central, entre a Praça Cívica e Avenida Independência.

De acordo com o Iphan, pelo projeto original no BRT, 10 plataformas interceptam a área de tombamento federal do acervo arquitetônico e urbanístico Art Déco de Goiânia. São duas (ida e vinda) plataformas na porção sul da Praça Cívica; duas na porção norte; duas próximas ao Grande Hotel/Av.Anhanguera; duas próximas à Avenida Paranaíba e outras duas próximas à Estação Ferroviária/Praça do Trabalhador (antes da Independência).

No entanto, o Iphan pediu alterações no projeto inicial apresentado pelo Consórcio BRT, responsável pela obra, que não foi aceito pelo órgão. Uma nova proposta acatando as observações do órgão será entregue hoje para avaliação do instituto. “São detalhes, como o posicionamento e altura das plataformas, essenciais para garantir a visibilidade dos bens tombados”, explicou a coordenadora técnica do Iphan, Beatriz Otto de Santana.

O coordenador do projeto do BRT, Ubirajara Abud, prefere não comentar as mudanças na via histórica. “O projeto executivo na Avenida Goiás está parado aguardando a aprovação do Iphan. Só poderemos dar mais detalhes quando a proposta for aprovada”, afirmou.

O POPULAR apurou que as plataformas de embarque e desembarque deverão ter 60 metros de comprimento, construídas com vidro transparente para não obstruir a visibilidade dos prédios históricos. Técnicos ouvidos pela reportagem afirmam que o paisagismo também sofrerá mudanças.

Atualmente, o projeto paisagístico da Avenida Goiás é uma concepção do arquiteto e paisagista Jesus Cheregati. O renomado profissional foi o vencedor de um concurso, realizado pela Prefeitura no aniversário de 70 anos de Goiânia, para revitalizar a via. “No meu projeto, uni os conceitos dos boulevards do Attilio (Corrêa Lima) e dos calçadões”, disse Jesus ao POPULAR em abril de 2013.

“O patrimônio cultural só tem sentido se for usufruído”

A coordenadora técnica do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Beatriz Otto de Santana, diz que construção do BRT é necessário para melhorar a mobilidade em Goiânia. O projeto, que passará pela Avenida Goiás, umas das primeiras vias da capital e que tem traçado urbanístico tombado pelo órgão, vai alterar a paisagem no centro histórico, mas, de acordo com a arquiteta, o patrimônio não será descaracterizado. “Nenhum bem tombado é congelado”, diz.

Por que o traçado da Avenida Goiás é tombado?

A Avenida Goiás faz parte do núcleo urbano pioneiro de Goiânia. A hierarquia de três vias principais (Avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins) convergindo para um ponto central, a Praça Cívica, é característica da década de 30. O tombamento é uma forma de garantir o visual desobstruído em direção à Praça Cívica, assegurar a manutenção desse bem cultural como representante da ocupação do Centro-Oeste brasileiro naquele período, que se materializou na construção de um traçado racional, alinhado com o que tinha de mais moderno na época.

São permitidas modificações na área tombada?

Nenhum bem tombado é congelado. O objetivo do tombamento é garantir o seu uso para a geração atual e as futuras. Qualquer área ou prédio tombados podem receber as melhorias necessárias, desde que o bem não seja descaracterizado.

O projeto do BRT pode descaracterizar a Avenida Goiás?

Nossa análise do projeto é feita no sentido de preservar os valores atribuídos ao bem tombado. Nos nossos pareceres, apontamos o que era necessário para a manutenção dos valores que foram justificados no dossiê de tombamento. Na Avenida Goiás Norte, por exemplo, o BRT ocupará todo o canteiro central. Mas isso não acontecerá na parte histórica da Goiás, entre a Praça Cívica e a Avenida Independência. Nesse trecho, as vias exclusivas de ônibus já existem. Apenas as plataformas de embarque e desembarque vão ocupar um pedaço do canteiro central.

O Iphan apoia o projeto do BRT?

Somos favoráveis ao projeto porque a maior necessidade da cidade hoje é a mobilidade urbana, não só em Goiânia, mas no mundo. O que me adianta ter um Centro congelado que não pode receber um transporte digno? Então, devemos colocar isso na balança, pois o patrimônio cultural só tem sentido se for usufruído.

Fonte: O Popular