Goiânia: Antiguidades sobre rodas nas ruas da capital

Andar de ônibus coletivo em Goiânia pode ser uma experiência cheia de nostalgia, sobretudo para quem mora na periferia. As rotas alimentadoras - aquelas que ligam os bairros aos terminais - têm, ao todo, 86 ônibus com data de fabricação anterior a 2005 e que ainda circulam pela cidade. Cinco deles foram fabricados em 1997 e 20 em 1998. A própria Rede Metropolitana de Transporte Coletivo (RMTC) prevê que o período de depreciação de um ônibus do modelo Padron é de no máximo dez anos.

Um dos veículos mais antigos faz a rota Terminal Novo Mundo/ Jardim Oliveira/ Flor do Ipê. De longe já é visível que se trata de um ônibus desgastado. A pintura externa, ainda na cor laranja, está descascando, com rachaduras, e a lataria tem furos e aberturas, deixando arestas pontiagudas que podem ser perigosas para os usuários. A situação é ruim também no interior do ônibus. O piso interno, de metal, não está devidamente encaixado em alguns pontos e os assentos são de plástico, dando o mínimo de conforto ao usuário. Além disso, ele apresenta adesivo de vistoria defasado, de 2014. A descrição é comum a vários outros veículos

O contrato de concessão dos serviços de transporte público, assinado pelas empresas vencedoras da última licitação, realizada em 2008, previa renovação obrigatória nos cinco primeiros anos (ou seja, até 2014) de pelo menos 978 veículos. Na época da assinatura, houve a última aquisição massiva de ônibus que circulam pela Região Metropolitana, com um total de 1.224 veículos adquiridos - 1.004 deles em 2008. Ainda assim, veículos antigos continuam a circular.

Idade

Em média, os ônibus da empresa Rápido Araguaia são os mais antigos, com 7 anos e 9 meses de média de idade. A Reunidas segue próxima, com média de 7 anos e 7 meses. A Cooperativa de Transportes do Estado de Goiás (Cootego) tem uma frota com média de 6 anos e 10 meses. Na HP, a média é de 5 anos e 10 meses. E, na Metrobus, 4 anos.

A Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC), empresa pública que exerce o gerenciamento, o controle e a fiscalização do transporte público na Região Metropolitana, diz que os ônibus com idades mais avançadas (superiores a uma década de rodagem) estão em condições regulares de uso.

Não é o que pensa a auxiliar de serviços gerais Elza Pereira, de 55 anos. Ela mora na Vila Moraes e trabalha no Jardim Novo Mundo, onde vai todos os dias. Para isso, utiliza os alimentadores e reclama das condições deles.

“São ônibus ruins, fazem muito barulho, são duros e desconfortáveis. Aumentam o valor da passagem todo ano e não trocam os ônibus. É um absurdo”, indigna-se. Relatos parecidos não são difíceis de encontrar.

Sem tranquilidade

O ônibus modelo Busscar, de 1998, encosta na plataforma A do Terminal Garavelo, em Aparecida de Goiânia. Os passageiros se espremem para entrar e tentar pegar um dos bancos livres da rota 570, que segue rumo ao Jardim Itaipu, distante cerca de 5 quilômetros dali. A pequena distância, no entanto, não faz com que a viagem seja tranquila.

O lanterneiro Carlos Eduardo Varanda, de 37 anos, trabalha no Jardim Esmeralda e mora no Madre Germana. Pega sempre os alimentadores para o Terminal Maranata e diz que, além dos problemas comuns, como atrasos e superlotação, os ônibus antigos pioram a vida de quem depende do transporte coletivo.

“Agora ainda é tranquilo, mas na época da chuva é pior. Choveu, molha tudo no interior. A água entra pela lataria, pelas janelas, não tem vedação”, denuncia.

“Baianinho”

Os modelos antigos que circulam pelas linhas alimentadoras são conhecidos dos usuários e, sobretudo, dos motoristas. Alguns têm até apelido: “Baianinho” é o modelo da Busscar de 1997, considerado duro e pesado. “Eles quebram mais por serem antigos, mas passam por revisão sempre. Rodam diariamente. Chego a preferir um desses a alguns novos, como por exemplo, alguns da Scania, mais lentos. De qualquer forma, é extenuante conduzir esses ônibus antigos”, afirma um motorista.

Vistorias não tem padrão único

As vistorias nos ônibus que circulam por Goiânia não seguem um padrão. Cada empresa tem periodicidade e procedimento próprios. A Reunidas, por exemplo, realiza vistorias preventivas da frota a cada 15 dias, quando são verificados itens básicos, como freios, motor, aceleração e correias. Na Rápido Araguaia, há dois tipos de manutenção: preventiva, por quilometragem, e corretiva, diária. Segundo funcionários, a diária abrange sinais visíveis e audíveis de problemas. Na preventiva, a cada 20 mil quilômetros é feita uma conferência minuciosa de freios, suspensão e correias, além de outros itens.

Na Cootego, há duas avaliações por quilometragem - aos 2 mil e aos 5 mil quilômetros. Também é realizada uma vistoria diária, mais superficial. Ainda assim, de acordo com mecânico ouvido pela reportagem, os carros antigos quebram bastante. “Uma mangueira está bem hoje e amanhã racha, fura”, exemplifica. Especializado em ônibus, o mecânico José Reinaldo Galvão pondera: com manutenção periódica e atenta, mesmo veículos mais antigos, de 1997 ou 1998, podem circular.

CMTC: frota antiga será substituída

Os mais de 80 ônibus que ainda circulam por Goiânia com data de fabricação anterior a 2005 estão em processo de adaptação e substituição. A informação é da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC), que prevê para até novembro a substituição desses veículos.

Segundo a companhia, o prazo é necessário para fabricação e entrega dos veículos novos. A retirada imediata dos antigos impactaria a operação, podendo causar o colapso do sistema que hoje opera com a totalidade da frota em horário de pico. Os veículos não teriam sido retirados para não comprometer o interesse público.

Ainda de acordo com a CMTC, anualmente é feita uma vistoria cujos requisitos são as condições operacionais dos veículos, também vistoriados em toda a Rede Metropolitana numa média mensal de 550 veículos por mês. A partir deste ano, houve o acréscimo da exigência de acessibilidade.

A CMTC informa que a frota da Região Metropolitana é de 1.440 ônibus. Desses, 112 não estão adaptados à acessibilidade plena, o que justifica a manutenção de selos de vistoria datados de 2014. Os ônibus mais novos já têm selos de 2015.

Em agosto do ano passado, O POPULAR mostrou que a aquisição de 300 novos ônibus para a Região Metropolitana de Goiânia dependia de garantia financeira das concessionárias à Volkswagen.

A RMTC não respondeu aos contatos da reportagem até o fechamento desta edição.

Fonte: O Popular