DF: Metrô trouxe progresso para Brasília, mas ainda é deficitário

O progresso chegou de metrô. A presença desse meio de transporte nas cidades impacta muito além da mobilidade urbana. O veículo sobre trilhos é capaz de acelerar a economia local, alimentar o mercado imobiliário, gerar empregos e promover transformações sociais, além de facilitar a vida da população. No DF, os sinais do desenvolvimento nas regiões nas quais o metrô funciona, como Ceilândia, Samambaia e Águas Claras, são nítidos. Houve a verticalização da moradia, o melhoramento do padrão de qualidade dos edifícios construídos em função das linhas, com endereços mais valorizados quanto mais próximos às estações, a efervescência do comércio nos arredores e toda a movimentação que tem o metrô como um de seus agentes principais.

Antes da inauguração do sistema, a paisagem de Samambaia era predominantemente formada por casas simples e prédios baixos. Com o Plano Diretor Local (PDL) da cidade, que aprovou a construção de edifícios maiores, e o novo meio de locomoção, a área viveu um boom imobiliário e sinais de prosperidade alcançaram o bairro, que tem um dos maiores índices de pobreza, desemprego e violência do DF.

Atualmente, é comum encontrar edifícios de alto padrão, com área de lazer completa e acabamento de primeira linha, em Samambaia. Os mais valorizados estão próximos ao metrô, que é usado como atrativo por construtoras na hora de promover seus lançamentos. “Com certeza, o desenvolvimento de Samambaia como vemos hoje não seria possível sem o metrô. O padrão de qualidade seria muito diferente sem esse meio de transporte presente. Basta comparar as regiões que têm metrô com as que não têm para ver a diferença do desenvolvimento. Quem apostou em Samambaia acertou”, diz o diretor técnico da Campolina Construções e Incorporações, Danilo Campolina. A empresa é dona de cinco edificações na cidade. A primeira construída por eles, ao lado do metrô, teve 100% das unidades esgotadas rapidamente. A segunda projeção levou três semanas para ter 70% dos apartamentos comprados. “A localização próxima ao metrô dá liquidez ao imóvel, faz com que seja vendido mais rápido”, explica.

A relação entre transporte público de qualidade e desenvolvimento econômico e social de uma região também é defendida pela Associação de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi). “É uma realidade mundial. Onde você tem transporte público eficiente, a região é valorizada. Com certeza, os prédios ficam com valor melhor e têm mais liquidez. À medida que a mobilidade urbana se torna mais eficiente, as regiões menos centralizadas tornam-se prósperas”, avalia o presidente da Ademi, Paulo Muniz.

Funções social e econômica do metrô foram ignoradas, aponta estudo

Em 2012, o departamento de transportes da Universidade de Brasília (UnB) entregou à então presidência do Metrô um projeto intitulado Centros de Dinamização Metrô-Cidade, com sugestões para aproveitar o potencial do metrô como polarizador do desenvolvimento e sua vocação de receber equipamentos urbanos de cunho econômico e social para atendimento das comunidades locais. “No Brasil, as estações são esses equipamentos grandiosos que só servem para a população entrar e sair. Na França, centros de negócios funcionam no metrô e ajudaram a revitalizar as áreas. No Japão, também há vários usos. Os Centros de Dinamização Metrô-Cidade constituem alternativas viáveis e factíveis de se alterar esta relação, estabelecendo as condições necessárias para a fixação da população em regiões mais próximas ao seu local de residência”, explica o professor da Universidade de Brasília (UnB), doutor em urbanismo e especialista em planejamento de transportes, José Augusto Fortes.

O projeto sugere a instalação de quiosques comerciais, por meio de parceria público-privada, a existência de barracões comunitários (para realização de atividades produtivas em cooperativas), espaços culturais movimentados, centros de comercialização, centros de orientação empresarial, salas para cursos e oficinas, além de outras atividades. “Nós falamos não apenas em engenharia civil, mas em engenharia civilizada. O metrô traz desenvolvimento e valoriza os imóveis ao redor, mas isso também afasta a população mais pobre para cada vez mais longe desse meio de transporte e do centro. Isso gera maior necessidade de deslocamento para quem tem menos poder aquisitivo e piora o trânsito. Portanto, a função social do metrô deve ser levada em consideração, com oferecimento de formação profissional e oferta de empregos, prioritariamente para os moradores mais carentes da região”, afirma Fortes.

Uma dissertação de mestrado da UnB, assinada por Camila de Carvalho e orientada por Fortes, analisou o conflito entre o sistema de transporte público de Samambaia e as necessidades de deslocamento da população local. Após ouvir mais de 2 mil residentes da região, o estudo chegou à conclusão de que só 5% deles priorizavam o uso do metrô. “A distância entre as estações, a falta de integração e a demora de chegada entre um trem e outro foram apontadas como problemas pelos moradores da cidade. Muitos deles levavam até 60 minutos para chegar a uma estação e até 2h30 para ir ao Plano Piloto, um dos destinos mais comuns”, descreve a mestra em transportes Camila de Carvalho.

Usuários do transporte público, como o vigilante Ilton Marques, 52 anos, morador de Samambaia, poderiam ser beneficiados com projetos de socialização do metrô. Ele usa esse sistema diariamente, mas não mora próximo à estação, pois o aluguel é mais caro. Trabalha na Asa Norte, onde os trens não chegam, e usa a bicicleta para completar os trechos que precisam de integração. Marques pedala quase uma hora por dia, entre ida e vinda do trabalho, mas não se queixa da distância, apenas da insegurança no trajeto.

Fonte: Correio Braziliense