Goiânia: BRT é sistema de deslocamento urbano mais moderno da atualidade, dizem especialistas

O quantitativo de cidades que criaram faixas exclusivas para o transporte coletivo por meio do sistema Bus Rapid Transit (BRT) saltou de 55 para 166 em um intervalo de apenas 10 anos, segundo o Institute for Transportation and Development Policy (ITDP). Goiânia é a 167ª cidade a adotar o modelo. Ao ter o início das obras autorizado pelo prefeito Paulo Garcia e pela presidenta Dilma Rousseff, em evento agendado para esta quinta-feira, 19, às 13h30, a Capital de Goiás não apenas passa a ter em execução um projeto que ampliará em 120 mil a capacidade de atendimento diário no transporte coletivo da Capital, mas entra, em definitivo, para o rol de cidades que em todo o mundo investem em modelos de mobilidade urbana sustentável.

Para o arquiteto e urbanista, ex-presidente da União Internacional dos Arquitetos (UIA), Jaime Lerner, o BRT é uma alternativa eficiente para a mobilidade urbana porque atende três problemas identificados atualmente nos conglomerados urbanos: mobilidade, sustentabilidade e convivência entre as pessoas. Além de ter características modernas, com uso de tecnologia para otimizar o serviço prestado, segundo ele, o sistema de ônibus que percorre canaletas exclusivas é mais viável também financeiramente, já que o metrô, que percorre vias subterrâneas, custaria até 10 vezes mais que o Bus Rapid Transit. O urbanista, criador do sistema BRT em Curitiba nos anos 1970, afirma que R$ 50 bilhões, por exemplo,viabilizariam BRTs em 70 cidades com população estimada entre 200 mil e 500 mil habitantes, em 17 municípios entre 500 mil e um milhão de habitantes, em 11 cidades entre 1 milhão e 5 milhões de cidadãos, e, ainda, duas metrópoles com mais de cinco milhões de pessoas.

“É possível atingir essas cidades com BRT e solucionar os problemas de mobilidade urbana delas sem recorrer ao metrô. Construções subterrâneas estão cada vez mais caras. Com esse dinheiro (R$ 50 bilhões), dará para fazer no máximo três linhas de metrô, enquanto que, com os mesmos recursos, é possível implantar BRTs em cem cidades brasileiras de duzentos mil a cinco milhões de habitantes”, argumenta.“Construir redes completas de metrô não é mais possível. Londres e Paris fizeram isso quando era barato trabalhar no subterrâneo”, acrescenta Lerner, consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) para questões de urbanismo. Para o arquiteto, que também é presidente honorário da Associação Latino Americana de Sistemas Integrados e BRT (SIBRT), hoje, o metrô é viável apenas para interligar cidades de regiões metropolitanas.

“O futuro está na superfície, mas é fundamental que cada implantação do BRT seja bem operada, integrada ao uso do solo e com visão de crescimento das cidades.Temos que oferecer um sistema de altíssima qualidade para mudar o paradigma. O carro vai ser como o cigarro no futuro. Você pode até ter o carro, mas vai ser aconselhado a não usá-lo para não incomodar as pessoas”, acrescenta o arquiteto e urbanista.

Goiânia

Ampliações dos números e das experiências bem sucedidas fizeram com que o BRT se tornasse quase unanimidade para os especialistas em transporte urbano enquanto opção com melhor custo benefício para melhorias da mobilidade urbana e do meio ambiente em grandes centros urbanos. Tanto, que o sistema já está presente em 35 países. Consenso construído também com base em prospecções como a da consultoria Ernst&Young, que estima que, até 2050, se o automóvel continuar visto como principal alternativa para deslocamento, 70% das pessoas vão utilizar veículos individuais para locomoção em grandes cidades. Como impacto desse aumento médio de 20% frente ao cenário atual, cada cidadão perderia, em média, 106 horas por ano em engarrafamentos. Número que é o dobro do registrado hoje nos centros urbanos do Brasil.

Outra taxa preocupante é o aumento da população urbana. No país, atualmente ela está em 84%. Em Goiás, 87%. Em Goiânia, 98%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Números esses superiores à média mundial, hoje pouco acima de 50%. No entanto, até 2050, a expectativa é de que a concentração populacional na zona urbana atinja 70% em todo o mundo. Percentual que o Brasil já superou. Investimentos em sistemas de transporte como o BRT e as ciclovias são considerados mecanismos eficientes, atestado por cidades onde o funcionamento já está avançado, para criar uma proporção de 60% de pessoas se deslocando por meio de transporte coletivo e 40% de carro, para reduzir de 12% para 6% os gastos do Produto Interno Bruto (PIB) com transporte e para evitar 180 mil mortes anuais em decorrência de acidentes de trânsito.

Para o diretor de transportes para a América Latina do ITDP, Ulises Navarro, o BRT já provou ser uma medida moderna e eficaz para resolver a mobilidade urbana em um prazo relativamente curto. “Conforme a extensão,é possível implantar um sistema BRT, do planejamento à execução, em dois anos. Enquanto isso, uma linha de metrô de mesmas proporções pode demorar de seis até dez anos”, afirma. Segundo ele, as linhas Cristiano Machado, em Minas Gerais, e a Transcarioca, no Rio de Janeiro, são consideradas as melhores do mundo. As vias do BRT no Brasil são as únicas reconhecidas como padrão “gold” para o ITDP. Os títulos foram concedidos em 2014 com base em mais de 30 critérios.

A expectativa é que o BRT de Goiânia seja concluído em 20 meses. Nesse prazo, devem ser implantados o sistema que opera sobre rodas, faixas exclusivas e expressas; terminais, estações de embarque e desembarque que possibilitem pagamento antecipado e integração a outras modais de transporte; novos paisagismo, sistemas de iluminação e de drenagem pluvial; de sensores e câmeras de monitoramento com funcionamento 24 horas por dia;a reorganização do trânsito no trecho e nas imediações por meio de novas sinalizações horizontal, vertical e semafórica; além da construção de três trincheiras, no Parque Amazônia, Setor Sul e Urias Magalhães.

“Goiânia terá um sistema de transporte coletivo integrado e que funcione alicerçado pela lógica da sustentabilidade, tão necessária à qualidade de vida nas cidades. Sei que todas as variáveis que envolvem a mobilidade urbana, a cultura e as políticas relacionadas a ela geram um desafio tão complexo quanto a gestão de uma cidade, principalmente porque trazem no bojo medidas impopulares, alterações na rotina e quebra de paradigmas. Mas nós, a equipe da Prefeitura de Goiânia, aceitamos o desafio. Além da retórica e da disposição para construir uma cidade melhor e mais sustentável, agora temos condições reais, apoio financeiro e parceria presidencial para esse embate contra a cultura do automóvel, contra o individualismo e a favor da coletividade”, garante o prefeito de Goiânia, Paulo Garcia.

“O transporte público será o eixo estruturador de todas as mudanças que queremos. Afinal, uma cidade sustentável passa invariavelmente por um sistema de mobilidade urbana que cause menor impacto ambiental e na qualidade de vida dos habitantes”, reflete o chefe do Executivo. Ao todo, Governo Federal e Prefeitura de Goiânia investem R$ 340 milhões no sistema que interligará as regiões Sul e Norte, dos terminais de integração Cruzeiro do Sul, no Parque Amazônia, ao Recanto do Bosque, situado em bairro homônimo. O BRT operacionalizará de modo a permitir a difusão da demanda e a dar acessibilidade em Goiânia aos municípios da região metropolitana.

Fonte: Prefeitura de Goiânia